Ruínas e urubus: história da Ornitologia no Paraná – III volume

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Johann Natterer.
(Österreichische Nationalbibliothek / Bildarchiv / PORT-12690/01)

Apresentação

É com imenso júbilo que apresento a obra “Ruínas e urubus: história da Ornitologia no Paraná” em seu terceiro volume. O conjunto desta obra trata-se, inegavelmente, do maior compêndio de informações sobre a história e meio ambiente do estado do Paraná já escrito. Um notável trabalho de pesquisa que apenas por este motivo, já seria uma grata satisfação fazer este prólogo. Todavia, torna-se um regozijo ainda maior pelo que representa o seu criador: o incansável naturalista do século XXI Fernando Costa Straube.

Para o leitor desavisado, aviso-lhe: o título engana. Há muito mais do que simples história da ornitologia paranaense em suas páginas. Na verdade, Ruínas e Urubus é uma obra fascinante e surpreendente sobre a história ambiental paranaense.

Em linhas gerais, define-se história ambiental como o estudo histórico da relação entre homem e natureza. Esta nova disciplina da História propõe a inserção do homem como parte integrante da natureza, encerrando o histórico olhar antropocêntrico sobre a mesma que vinha sendo escrita desde os estudos seculares de Aristóteles (384-322 a.C.) com a sua Historia animalium e de Plínio, o Velho (23-79 d.C.), em Naturalis historiae – considerada a primeira enciclopédia da Antiguidade e que reuniu diversas informações sobre plantas, animais, minerais e vários outros assuntos. A esta última, inclusive, se atribui o cunho e a perpetuação do uso do termo “História Natural”.

Contudo, a origem do termo “História Ambiental” como nova disciplina socioambiental é mais recente. Foi concebida nos anos 1970 nos Estados Unidos, fruto de um processo de reflexão ambiental iniciado nos controversos anos 1960 e 1970. No Brasil, os primeiros trabalhos se concentraram no final dos anos 1980, destacando-se entre outros, os autores Donald Worster, Warren Dean, José Augusto Pádua, José Augusto Drummond, Arthur Soffiati, entre outros.

Worster, um dos autores teóricos referenciais da temática, entende que são três os níveis em que a História Ambiental se desenvolve; sendo que o primeiro trata da reconstituição dos ambientes naturais do passado; o segundo descreve a influência socioeconômica sobre a natureza; o terceiro analisa o mundo das ideias e concepções que formam o zeitgeist de uma determinada sociedade com o mundo natural.

No que tange à reconstituição dos ambientes naturais do passado, a primeira das três perspectivas elencadas por Worster no estudo desta ciência, Straube apresenta um importante diferencial em relação aos demais historiadores ambientais: conhece a fundo os lugares, os ecossistemas, a fauna e a flora nativas do Paraná e do Brasil – fruto de suas incursões trabalhando como consultor ambiental há mais de duas décadas. Deste modo, ele se distingue dos demais autores de história ambiental por ser um profissional forjado nas ciências naturais e com grande conhecimento na interpretação pretérita e atual da paisagem, assim como as espécies que as compõe, mesmo àquelas que não se encontram mais.

Outro atributo do autor se refere ao seu conhecimento particular da história do estado do Paraná, demonstrado nesta obra por meio das efemérides que auxiliam o leitor a entender a contextualização histórica de que trata o referido momento temporal descrito e que antecede a apresentação de cada personagem. Esta metodologia conduz o leitor para uma viagem ao passado com uma aterrisagem mais precisa. Ressalta-se, na obra, a grande quantidade de autorreferências de sua blibliografia no campo historiográfico ambiental, revelando a sua pródiga produção no levantamento de informações de fontes primárias.

É digno de nota que os autores oriundos das ciências naturais são exceções neste novo campo de estudos da historiografia, e Straube, com o perdão do trocadilho ornitológico, tem se destacado como uma avis rara no Brasil.

O seu trabalho se assemelha ao do biólogo e historiógrafo ambiental americano Jared Diamond, pesquisador que também transita com facilidade em ambos os campos das ciências sociais e naturais, realizando um diálogo interdisciplinar cujos trabalhos de história ambiental tem recebido notoriedade internacional, como é o caso do best seller “Colapso – como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”.

Vale destacar que Straube vem produzindo artigos sobre história ambiental desde os fins dos anos 1980 silenciosamente, sendo portanto, sem exagero, um dos seus precursores desta nova ciência socioambiental, não apenas no estado do Paraná, mas também no Brasil. Vide, por exemplo, os seus artigos sobre: a contribuição de André Mayer à História Natural no Paraná (1989), o zoólogo Johann Natterer (1990 e 1993), o naturalista polonês e Patrono da Ornitologia no Paraná, Tadeusz Chrostowski (1990 e 1993), e outras mais de duas dezenas de trabalhos produzidos nas últimas décadas.

O autor consegue, com perspicácia singular, reconstruir algumas paisagens extintas do estado do Paraná exumando personagens e seus relatos de um longínquo passado ambiental paranaense; trazendo a lume os guarás escarlates de Vieira, os socó-bois de Lellis da Silva, os jaós de Telêmaco Borba, as araras do rio Tibagi de Cândido Pitanga, as lamúrias tropicais de Tschudi, entre outras preciosas informações, descrições e análises.

Esta maestria do autor em desvelar informações históricas e ambientais importantes através do seu rigoroso escrutínio técnico-científico, faz ressuscitar autores, paisagens, animais e plantas, informações singulares que provavelmente estariam fadadas ao esquecimento dos escaninhos empoeirados de uma estante qualquer.

Em alguns casos, corrige eventuais erros de identificação das espécies feitos pelos seus biografados. Desta forma, Straube manifesta-se como um tradutor do passado, uma espécie de médium que nos faz revelar espécies e lugares que às vezes se camuflam na eventual falha de diagnóstico do biografado ou na inexorável passagem do tempo, colaborando sobremaneira para uma descrição mais realística de cenários ambientais extintos ou desfigurados pela ação humana – tarefa quase improvável de ser realizada por um historiador que não tenha a formação necessária sobre os conceitos das ciências naturais.

Neste conjunto de volumes de Ruínas e Urubus, o autor claramente presta um serviço inestimável aos interessados na natureza e na história do estado do Paraná. Contribui, neste sentido, para uma reflexão sobre a transformação da natureza paranaense durante os últimos séculos. Uma obra que já nasce clássica e referencial, que apenas o tempo será capaz de dimensionar a sua importância e de seu autor.

Definitivamente, Straube merece mais espaço na galeria dos estudiosos referenciais de história ambiental no Brasil. Assim, nesta apresentação, em nome da memória ambiental do estado, e de toda sorte de exploradores, viajantes, naturalistas e pesquisadores, e de toda a lama entranhada nos seus pés advinda da miséria das expedições em meio a florestas pristinas, das excruciantes transposições de rio com canoas de cedro pesadas, de toda miríade de insetos de todas as ordens, de espinhos e taquarais sem fim, humildemente vimos aqui lhe dizer: muito obrigado por ter se lembrado de nós!

ALESSANDRO CASAGRANDE.

 

Download:  Ruínas e urubus: história da Ornitologia no Paraná –  Período de Natterer, 2  (1835 A 1865)  – 4,66 mb

 

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ALESSANDRO CASAGRANDE é engenheiro agrônomo, especialista em Ciência de Solo e Mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento. É coordenador da Rede Brasileira de História Ambiental e membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.