A árvore que chora

Estrangeiro posa ao lado de uma seringueira em 1913

Na Amazônia ela era conhecida como “a árvore que chora”, o sangue branco da floresta, e por gerações os índios haviam retalhado o seu tronco, deixando o látex gotejar em folhas, de onde podia ser moldado à mão na forma de vasos e lâminas impermeáveis à chuva.

Colombo encontrou índios arauacãs jogando com estranhas bolas que quicavam e voavam. Thomas Jefferson e Benjamin Franklin descobriram que o material era ideal para apagar anotações à lápis. Devido à crença generalizada de que se originava nas Índias Ocidentais, a substância era chamada de India rubber. Na verdade o produto vinha do Brasil, onde o rei de Portugal já havia estabelecido uma ativa indústria que produzia sapatos, capas e bolsas de borracha.

Todos esses produtos, no entanto, tinham uma grande falha. No frio a borracha tornava-se tão quebradiça que rachava como porcelana. No verão uma capa de borracha reduzia-se a um manto viscoso. Então, em 1839, Charles Goodyear descobriu (inteiramente por acidente) a vulcanização, um processo que torna a borracha resistente aos elementos, transformando-a assim de curiosidade num ingrediente essencial da Era Industrial. Em 1888 John Dunlop inventou os pneus infláveis de borracha para que o seu filho pudesse ganhar uma corrida de triciclo em Belfast.

Sete anos mais tarde os irmãos Michelin deixaram a crítica boquiaberta ao introduzirem pneus removíveis no rally Paris-Bordeaux. Na virada do século havia cinqüenta fábricas de automóveis nos Estados Unidos. A Oldsmobile, a mais bem sucedida, vendeu 425 carros só em 1901. Menos de uma década depois os primeiros 15 milhões de Modelos T deslizaram para fora da linha de produção de Henry Ford. Cada um deles precisava de borracha, e a única fonte era a Amazônia.

O repente de riqueza da foi hipnotizante. Em Londres e Nova Iorque homens jogavam moedas para decidir se sairiam em busca de ouro no Klondike ou borracha no Brasil. No pico da corrida 5.000 aventureiros chegavam à Amazônia por semana.

Mercadores negociam borracha crua no centro de Belém, em março de 1913. Esterograma.

Em 1909 os negociantes estavam despachando rio abaixo 500 toneladas de borracha a cada dez dias. Em 1910 a borracha representava 40 por cento das exportações brasileiras. Um ano depois a produção atingia o seu pico máximo de 44.296 toneladas. Isso valia, numa estimativa conservadora, mais de 200 milhões de dólares. Em Pittsburgh o magnata do aço Andrew Carnegie lamentava: “eu deveria ter escolhido a borracha”.

Manaus, situada no coração do comércio brasileiro de borracha, transformou-se em poucos anos de um modesto vilarejo à beira do rio numa próspera cidade cuja opulência atingia níveis bizarros. Os barões da borracha acendiam charutos com notas de 100 dólares e saciavam a sede dos seus cavalos em baldes de prata cheios de champagne francesa gelada. Suas esposas, desdenhosas das águas barrentas do Amazonas, mandavam seus linhos a Portugal para serem lavados. Prostitutas de Tangiers e de São Petesburgo chegavam a ganhar 8.000 dólares por uma noite de trabalho, tarifas que eram freqüentemente pagas em tiaras e jóias; em 1907 os cidadãos de Manaus eram os maiores consumidores per capitade diamantes do mundo.

Foi fundado em 15 de fevereiro de 1878, durante o período áureo do Ciclo da Borracha. É composto por materiais decorativos importados da Europa.

O luxuoso Theatro da Paz em 1913.

Ao longo do território do Amazonas o comércio da borracha desencadeou um reino de terror a que não se via igual desde a consquista espanhola. No fim o que salvou a população nativa foi um ato da política imperial britânica. Em 1877 sementes de borracha trazidas pelos ingleses das florestas do Brasil chegaram à Malaia, uma terra tropical de clima similar à Amazônia, mas intocada pela praga da folha. Aqui não era necessário que as árvores crescessem tão separadas umas das outras; plantações densas e eficientes eram possíveis. Em 1909, mais de 40 milhões de pés de seringueira haviam sido plantados na Malaia (hoje em dia parte da Malásia), em intervalos de apenas seis metros, em fileiras regulares que permitiam que um único trabalhador sulcasse 400 árvores por dia. A produção dobrava a cada doze meses.

Com o sucesso das plantações, o boom da borracha da Amazônia implodiu. Em 1910 o Brasil produzia cerca de metade do consumo mundial; em 1918 a cifra caía para 20 por cento. Em 1940 o Brasil era responsável por apenas 1.3 por cento da produção mundial de borracha, e a nação havia se tornado importadora inveterada do produto que havia dado ao mundo.

Tradução de Shadows In The Sun (1998) de Wade Davis por Paulo Brabo.

* Paulo Brabo é escritor, ilustrador e editor do site A Bacia das Almas.