A ferro e fogo – A história da devastação da Mata Atlântica por Athur Soffiati

Livro publicado postumamente pelo brazilianista Warren Dean reconstitui séculos de devastação da Mata Atlântica

Por Arthur Soffiati*

A derrubada, 1913 de Pedro Weingärtner. Museu Nacional de Belas Artes

Em ecologia, denomina-se bioma ao conjunto de ambientes (ecossistemas) aparentados. Assim, dentro das fronteiras brasileiras, podemos distinguir os biomas do complexo amazônico, do cerrado, da caatinga, do Pantanal Mato-grossense e da Mata Atlântica. Este último inclui, segundo s classificações recentes, não apenas a floresta perene da vertente costeira da Serra do Mar, que Tom Jobim considerava “a coisa mais bonita do mundo”, mas também os campos de altitude, a floresta estacional das terras baixas, os pinheirais do sul, a vegetação de restinga e os manguezais.

            Depois de escrever A industrialização de São Paulo e Rio Claro: um sistema brasileiro de ‘plantation’, dois clássicos da historiografia, o brazilianista americano Warren Dean tornou-se um ecohistoriador. Esta conversão se deu quando ele rastreou as fontes de energia usadas para aquecer as fábricas de São Paulo e topou com a destruição de florestas, da mesma forma que, estudando um sistema de grande lavoura, percebeu seus impactos sobre o meio ambiente. A partir de então, seu olhar voltou-se para a Amazônia e produziu o livro A luta pela borracha no Brasil. Antes de sua morte trágica no Chile, em 1994, ele coroou sua carreira de historiador escrevendo A ferro e fogo – A história da devastação da Mata Atlântica, livro publicado postumamente.

            Como a ecohistória ainda está muito atrasada no Brasil, sobretudo entre os próprios historiadores, que torcem o nariz para ela com desconfiança e desdém, Warren Dean optou por empreender a descomunal tarefa de construir uma história de longuíssima duração, cujo início situa-se na formação do próprio Domínio Atlântico, muito antes da invasão da América por qualquer contingente humano, com, com o término espraiando-se a nossos pés, neste final de século e de milênio. Término tanto do livro quanto da mata.

            A síntese, no entanto, é monumental e abre um amplo leque de perspectivas para novas pesquisas. Nela, Warren Dean não olha mais de fora os ambientes nativos. Antes, aloja-se em seu interior e examina com melancolia os golpes desferidos contra eles pelas sociedades humanas. “Esta história da Mata Atlântica não é uma história natural; ou seja, não é uma explicação das criaturas da floresta e das relações que estas mantêm entre si. É, antes, um estudo da relação entre a floresta e o homem”. Nela, o “homem” é implacavelmente considerado como invasor, provenha ele da Ásia ou da Europa. O historiador americano faz uma síntese bastante atual dos conhecimentos acerca dos povos indígenas, primeiros invasores da Mata Atlântica, e não se deixa envolver pelo mito segundo o qual eles viviam em harmonia com o meio ambiente. Destaca, principalmente, a agressividade dos tupi, que, com sua agricultura e com suas intermináveis guerras, devem ter infligido sofrimentos dolorosos aos habitantes não-humanos da floresta.

            Seu alvo maior, contudo, são os europeus, que transportam para a América um modo de vida altamente insustentável do ponto de vista ecológico. “A invasão europeia do Novo Mundo – observa – diferiu da primeira invasão pelo fato de que essa a segunda leva já havia adotado a agricultura. Suas fileiras, portanto, contavam com uma série considerável de espécies domesticadas que, com vantagem, poderiam trazer consigo”. Em contato com uma natureza que parecia inesgotável, seus descendentes neo-europeus desenvolveram uma cultura predatória e perdulária, buscando o enriquecimento fácil e rápido mediante a exploração indiscriminada dos recursos naturais.

            Já liberto das imposições da academia, Warren Dean não teme externar julgamentos de valor. Suas críticas contundentes se voltam para o sistema de sesmarias, que favorecia o acesso à terra e a devastação florestal; para as práticas econômicas danosas aos ecossistemas; para a incompetência, o desleixo e a corrupção dos governos, sejam eles do período colonial do Império, da República civil, do Estado Novo, do autoritarismo militar ou da Nova República; e para o desprezo secular que a cultura da neo-Europa brasileira devotava à natureza. Nas páginas de seu livro, desfilam personalidades que não mereceriam qualquer destaque em estudos de história econômica, social, política e cultural. Nelas figuram Manuel Arruda Câmara, o primeiro naturalista brasileiro a alertar sobre o risco de extinção de espécies, o padre botânico José Mariano da Conceição Veloso, o infatigável Francisco Freire Alemão, José de Saldanha da Gama, Ladislau Neto, João Barbosa Rodrigues, o inveterado plantador de eucalipto Edmundo Navarro de Andrade, o botânico ativista Alberto José de Sampaio, o polêmico Augusto Ruschi, o arqui-desmatador Rainol Greco e tantos outros, além dos estrangeiros aqui fixados ou que por aqui passaram. É de se notar a ausência do grande naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied.

            Impressionante, no livro póstumo de Warren Dean, é a quantidade e a diversidade de fontes e bibliografia utilizadas. Parece que nada escapa ao pesquisador. Ao todo, são 66 destinadas a fontes e bibliografia num conjunto de 380 reservadas à abordagem do tema. Dean é um exemplo de pesquisador profissional sério e disciplinado, por mais que se possa contestar a sua metodologia e as suas conclusões.

            A ferro e fogo não deixa também de ser um livro sobre a história dos vencidos, no caso, os defensores da Mata Atlântica, as populações mestiças que se adaptaram à floresta, as nações indígenas que, bem ou mal, construíram um saber pragmático acerca dos ecossistemas em que viviam e, acima de tudo, o próprio Domínio Atlântico, que, de uma extensão estimada em 1.085,554 Km2, foi reduzido a estropiados 95.641 km2, cerca de, 8,8% da sua superfície original, em face do extrativismo, da agricultura, da pecuária, da industrialização e da urbanização. Nada conseguiu deter sua destruição: nem a barreira indígena, nem a voracidade das saúvas, nem as advertências dos naturalistas, nem a legislação tímida dos governantes, nem os movimentos de defesa do meio ambiente. Warren Dean conclui seu livro de forma pessimista e sombria: “O último serviço que a Mata Atlântica pode prestar, de modo trágico e desesperado, é demonstrar todas as terríveis consequências da destruição de seu imenso vizinho do oeste: a Amazônia”.

Jornal do Brasil, 8 de Março de 1997.

* Arthur Soffiati é professor da UFF e autor da dissertação de mestrado O nativo e o exótico – Perspectivas para a história ambiental na ecorregião Norte-Noroeste Fluminense entre os séculos 17 e 20.

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A ferro e fogo – A história da devastação da Mata Atlântica

Autor: Warren Dean

Tradução de Cid Kempel Moreira / Companhia das Letras, 476 páginas

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