Breve histórico de Campos e região (II) por Arthur Soffiati

Mapa de Campos e região talvez do final do século XVII ou início do século XVIII

A historiografia tradicional sustenta, sem a devida comprovação documental, que o pescador Lourenço do Espírito Santo, saindo de Cabo Frio, chegou à foz do Rio Paraíba do Sul em 1622, onde sua atividade foi recompensada. Voltando a Cabo Frio, ele trouxe de lá vários companheiros e se fixou no local hoje correspondente a Atafona. Ao banhar-se no Paraíba do Sul, sua mulher foi arrastada pela correnteza e morreu afogada. Desgostoso, Lourenço deslocou o acampamento de pescadores para o local onde se ergueria São João da Praia, hoje São João da Barra.

Sendo procedente a migração de pescadores de Cabo Frio para o vale do Paraíba do Sul, o acontecimento se torna emblemático. Primeiro porque pescadores teriam chegado à futura região norte fluminense dez anos antes que os Sete Capitães, homens dedicados à criação de gado. Segundo porque, durante séculos, a pesca, atividade extrativista, está mais próxima da economia dos povos nativos que a agropecuária dos europeus. Aos poucos, estas atividades entram em rota de colisão até explodirem em levantes de pescadores nas Lagoas Feia, de Cima e do Campelo, bem como no Farol de São Tomé, em fins da década de 1970 e início da década de 1980.

A finalidade dos Sete Capitães era fornecer gado para o Rio de Janeiro, pois as escassas terras no entorno da baía eram usadas para o plantio de cana. Já os pescadores buscavam apenas uma fonte de alimento, vez que a pesca não havia sido ainda capturada pelo mercado. Assim, os pescadores constituíam comunidades tradicionais. A fertilidade das terras da planície aluvial do Rio Paraíba do Sul levou Salvador Correia de Sá e Benevides, governador do Rio de Janeiro, a requerer a Capitania de São Tomé para seus parentes, agora com o nome de Capitania da Paraíba do Sul. Junto com ele, vieram os jesuítas e os beneditinos. Trava-se, então, de uma disputa entre os herdeiros dos Sete Capitães e os novos proprietários. A parte considerada apócrifa do “Roteiro dos Sete Capitães” recebeu o nome de escritura endiabrada, narrando as manobras de Salvador Correa de Sá e Benevides para se apossar das terras dos sesmeiros.

Quatro latifúndios se constituíram já no século XVII: o Morgado de Capivari, do Capitão José de Barcelos Machado, herdeiro dos Sete Capitães; as terras dos Asseca, descendentes de Salvador Correia de Sá e Benevides; o dos jesuítas e o dos Beneditinos. Na segunda metade desse século, já havia o núcleo urbano de Campos com uma câmara municipal ainda não reconhecida pelo governo português. A cana de açúcar começava a desalojar o gado.

Em 1657, André Martins da Palma, fugido do Rio de Janeiro, escreveu uma memória sobre o desenvolvimento dos Campos dos Goitacás. Ele relatava nela a importância do Rio Paraíba do Sul e da Lagoa Feia. Falava da fertilidade das terras, da importância de se cultivar cana e de se erguer engenhos, dos índios e dos escravos africanos. Trata-se do primeiro projeto capitalista para a região, no qual a palavra “desenvolvimento” figura pela primeira vez na documentação relativa à história regional. Em 29 de maio de 1677, o povoado de Campos é elevado oficialmente à condição de vila. No período colonial, a Câmara ou Senado da Câmara concentrava os poderes legislativo e executivo.

Para finalizar o século XVII, em 1688, José de Barcelos Machado percebe que um dos formadores do Rio Iguaçu corria perto da costa e rasgou uma vala ligando a corrente d’água ao mar. Ela recebeu o nome de Vala do Furado e pode ser tomada como a primeira ação de drenagem da região. O escoadouro principal da Lagoa Feia continuou sendo o Rio Iguaçu, que recebia, pela margem esquerda, o contributo do Córrego do Cula, um dos paleocanais do Paraíba do Sul, do qual restou apenas um esquálido estirão acossado pela malha urbana de Campos, posto que tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural; e águas excedentes do próprio Paraíba do Sul, em tempos de cheia, escoavam pelo chamado Rio Doce, aproveitado para a abertura do Canal do Quitingute no século XX.

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