Como concebo a história ambiental por Arthur Soffiati

Estou cada vez mais convencido de que sou um grande curioso, no geral, e um historiador, no particular. Só consigo entender o mundo por uma perspectiva temporal, ou seja, diacrônica. Não me interessa a astronomia, mas a cosmologia, que estuda a história do universo. Não me interessa a geologia se ela não for apresentada numa dimensão temporal. Não me interessa a biologia se ela não se apresentar pelo prisma da paleontologia. Não me interessam as sociedades humanas pelo ângulo sincrônico, mas apenas pela perspectiva diacrônica.Mais que historiador, creio ser um diacronólogo, um estudioso que só compreende a realidade se, além de suas três dimensões, for adicionada a quarta, que é a dimensão do tempo.

Para delimitar o campo da história ambiental, que gosto de chamar de ecohistória, começarei dizendo que ela não é a história da natureza sem o ser humano, como propôs o grande historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie em sua historia do clima. Também não é a história conforme a conhecemos, na qual os humanos tratam a natureza não-humana como palco tão somente. Na verdade, esta história – econômica, social, política e cultural – não é produzida pelos humanos, mas pelos historiadores.

A ecohistória foca seu olhar naquele ponto em que as antropossociedades (sociedades humanas) se encontram com o que chamamos de natureza (ecossistemas) e com ela se relacionam de forma ativa. Esta concepção pressupõe que a natureza não-humana é também sujeito de história. Heresia, dizem-me os historiadores e outros cientistas sociais. Para eles, só o “Homem” é sujeito de história, pois dela tem consciência. Observo que não existe consciência absoluta do processo histórico, nem no indivíduo comum nem no intelectual-limite situado em sua época. A natureza pode não ter consciência, mas tem inteligência, age e reage. O mundo natural não é amorfo nem inerte.

Assim, como ecohistoriador, acolho a teoria da complexidade, que tem em Edgar Morin seu mais alto expoente. A natureza gera o cérebro hipercomplexo do ser humano historicamente. O cérebro gera as culturas e as culturas interferem na natureza, formando o que Morin conceitua como anel recursivo. Em vez de um profundo corte epistemológico entre natureza e cultura, como ainda defendem os pensadores mecanicistas, uma íntima relação entre natureza e cultura.

Um dos poucos historiadores clássicos a perceber a ligação intrínseca entre natureza e cultura foi Arnold Toynbee, sobretudo em “A Humanidade e a Mãe Terra”, seu último livro. No início deste trabalho, ele mostra as condições ambientais em que emergiram os hominídeos. Em seguida, avança com a história humana, dando a impressão de que ela se descolou da natureza. No final, a natureza aparece novamente, agora de tal modo transformada pelas antropossociedades que passa a ser um ambiente perigoso para a humanidade. Fernand Braudel também contribui bastante para a ecohistória, embora não fosse este seu objetivo, ao entender as relações das antropossociedades com a natureza como o campo da longa duração. Os historiadores não gostam muito desta interface.

Nos meus estudos teóricos, encontrei o intelectual francês Michel de Certeau, que também se imiscuiu no campo da História. Dele, o livro que mais lançou luz sobre minhas especulações foi “A invenção do cotidiano”. Dois conceitos de Certeau são fundamentais: estratégia e tática, não entendidos como na linguagem militar e como no marxismo. Para o intelectual francês, estratégia é o campo construído pelo dominador, impondo limites aos dominados. Tática, por sua vez, são os movimentos desenvolvidos pelos dominados para sobreviver no terreno do dominador. Esta abordagem permite compreender desde os movimentos criativos da natureza até os movimentos criativos dos humanos. O próprio Certeau insiste neste aspecto. Os vegetais e os animais desenvolvem mecanismos de adaptação aos ambientes em que vivem, assim como os humanos. Mencionemos apenas as táticas desenvolvidas pelos escravos no Brasil. Os historiadores atuais da escravidão concluem como Certeau sem devidamente reconhecerem sua contribuição para as novas premissas teóricas.

Lembro ainda o historiador italiano Carlo Ginzburg, que está mergulhado apenas na história humana, mas que construiu os ricos e transdisciplinares conceitos de norma e anomalia. Norma é a repetição, o padrão. Anomalia é o elemento destoante da norma. Ele tornou famoso o caso de Menocchio, o moleiro que destoou da norma ao conceber uma teologia considerada herética pela Igreja. O tribunal da inquisição condenou-o à morte, assim como a Giordano Bruno, mas este, como dominicano e intelectual, não discordava da norma. No pintor Piero della Francesca, Ginzburg procurou elementos anômalos às normas da pintura renascentista e os encontrou.

Ao examinar as relações de antropossociedades com manguezais, estudei a biologia deste ecossistema para definir a norma. A partir de então, concentrei-me nas anomalias e confirmei a condição da natureza como sujeito de história.

Fonte: Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, 24 de fevereiro de 2013.

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