D. Pedro II adotou o romantismo naturalista para consolidar o Império no Brasil

O Império brasileiro é certamente uma instituição singular na geografia política da América e um momento único na história brasileira. O Império contribuiu para a sustentabilidade do país com a manutenção do sentido da nação e com a unidade do território, relativamente pouco afectado por guerras e revoluções desagregantes (como aconteceu na América espanhola). Da transição do período colonial português para o imperial brasileiro, mantiveram-se estruturas de governo funcionais, algumas instituições científicas e técnicas criadas durante a permanência de D.João VI no Brasil e experiências modernizadoras (reflexos da Revolução Industrial mundial), mas principalmente um espaço físico ainda desocupado e subexplorado e, portanto, passível de experiências civilizatórias e de elaboração de discursos.

 O império aconteceu no Brasil pelo entendimento da elite brasileira da época de que a monarquia aparecia como o único sistema capaz de assegurar a unidade do vasto território brasileiro e impedir o fantasma do desmembramento vivido pelas ex-colónias espanholas vizinhas. As representações simbólicas do poder imperial evocavam elementos de longa duração, como justiça, paz e equilíbrio, provenientes da longa tradição monárquica europeia, o que de certa forma ressaltava a homogeneidade da elite política brasileira da época, basicamente educada em Portugal, nos moldes da realeza e com poucos pendores para aventuras republicanas.

É efectivamente no regime monárquico que se forjou no Rio de Janeiro, então capital política, económica e cultural do país, um padrão de comportamento mais moderno que moldaria o país no século XIX e se mantém, em muitos aspectos, até hoje. Além do Rio, situado estrategicamente no meio do país, as metrópoles regionais Recife e Salvador formariam a tríade de cidades portuárias que difundiriam a modernidade oitocentista no Império. Esta modernidade estava calcada em um liberalismo menos conservador e produziria uma crítica social constante e ferina durante todo Império e que em raras ocasiões seria reprimida.

No entanto, mais do que se incomodar com eventuais críticas, o Império estaria preocupado em forjar uma identidade própria para o país dentro do concerto de nações. Para isto seria necessário criar um discurso unificador que unisse a tradição da monarquia aos atributos naturais brasileiros.

Diante da busca por um discurso que representasse o país, o romantismo surgiu para os intelectuais comprometidos com a causa brasileira como o género capaz de exprimir, de forma original, as singularidades da nação. Assim, em 1836, um grupo de jovens brasileiros residentes em Paris fundou a revista Niterói, que apesar da vida curta, pode ser considerada o marco do romantismo brasileiro.

A revista buscava a exaltação das originalidades brasileiras, fazendo com que o romantismo viesse de encontro ao desejo de manifestar na literatura uma especificidade do jovem país, em oposição aos cânones legados pela pátria-mãe ou pelos demais países europeus.

Apoio à investigação científica

Enquanto isto, no Brasil, conforme DEAN (1997) comenta, os altos funcionários imperiais começaram a apoiar a investigação científica sobre os recursos naturais do país e incentivaram a criação de novas instituições científicas, retomando a proposta do articulista da independência José Bonifácio de Andrada e Silva. Estas instituições materializaram o discurso cartesiano, na forma da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (SAIN) em 1827, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 1838 (ano da morte de José Bonifácio), do Núcleo Imperial de Horticultura Brasileira em 1849 e da Sociedade Vellosiana em 1851, entre outras.

Os membros destas sociedades, naturalistas e técnicos, viajados e instruídos, expressavam o temor quanto ao dano ambiental pela intensificação da actividade económica e pelo adensamento populacional e estariam fadados a enfrentar questões ambientais e de conservação da natureza.

Em, 1840, porém, a unidade do país estava ameaçada por revoltas internas e pela ausência de um verdadeiro monarca no poder, pois D.Pedro I voltara para Portugal e D. Pedro II era muito jovem.

Aos 15 anos de idade ele acaba sendo declarado maior de idade para poder assumir o poder e apaziguar o país. Apesar da juventude, Pedro II acabaria fazendo uso frequente do poder moderador conferido pela constituição do país à sua pessoa, para decidir, como verdadeiro monarca absolutista, os destinos da nação.

Com a entrada de D.Pedro II no IHGB e seu mecenato, o romantismo brasileiro se transformaria em projecto oficial, em verdadeiro nacionalismo e como tal passaria a inventariar o que seriam as originalidades locais, representando o país segundo os interesses do Estado. Os intelectuais de formação cartesiana do instituto representariam de fato, como PÁDUA (2002) afirma, elementos essenciais para a construção, inclusive simbólica, da ordem nacional e de uma ponte para o relacionamento directo entre os intelectuais e o poder, mas o romantismo no Brasil, seria muito mais do que uma mera reacção aos excessos materialistas e racionalistas do pensamento cartesiano, como algumas vezes se comenta.

Função da natureza brasileira

Assim, se como PÁDUA (2002) afirma, a crítica ambiental brasileira do período acabou tendo muito pouca influência do naturalismo romântico, como comentei em um artigo anterior aqui na Ciência Hoje, este movimento não pode de forma alguma ser desprezado, pois o mesmo não pode ser dito da cultura oficial, responsável pela construção de uma identidade que pudesse ser identificada como nacional. SCHWARCZ (1998), afirma que a natureza brasileira cumpriu função importante no período romântico.

Sem castelos medievais, templos romanos antigos e poucas batalhas heróicas para relembrar, sobravam o maior dos rios, a mais bela vegetação, cachoeiras gigantescas e árvores enormes. Entre palmeiras, abacaxis e aves silvestres, apareceriam caracterizados o monarca ou a nação, como na figura, tanto em técnicas tradicionais como a pintura como em inovadoras como a fotografia, da qual Pedro II foi entusiasta. Os índios actuavam como nobres no exuberante cenário da floresta brasileira e em total harmonia com ela.

A presença dos índios nas representações oficiais representa um capítulo à parte. Impossibilitado, pela escravidão, de vender a imagem de “harmonia racial” (como hoje se faz no Brasil), o discurso oficial procurou estimular uma literatura nacional romântica, porém autónoma, sob os moldes do indigenismo. O intuito era o de criar um passado e buscar continuidades temporais e uma antiguidade para a jovem nação, o que significava um retorno ao “bom selvagem” de Rousseau.

Sabia-se muito pouco sobre os indígenas, mas na literatura ferviam os romances épicos que traziam indígenas heróicos, em amores silvestres com a floresta virgem como paisagem. Estas imagens seriam recorrentes e para isto o próprio D.Pedro II contribuiria, distribuindo imagens oficiais onde apareceria ladeado de indígenas, flores e árvores tropicais, além de ramos de café e tabaco, alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil na época.

Discurso oficial e palaciano

Assim a literatura e as demais artes cedem espaço ao discurso oficial e palaciano. A natureza exuberante e o indígena transformado em modelo nobre tomam parte, mesmo como perdedores, da génese do Império. Transformado em uma monarquia dos justos, o Império aparece como contraposto à colonização portuguesa, que passou a ser vista como terreno da desigualdade, ainda que questões básicas como a da devastação da natureza, a escravidão e o extermínio da própria população nativa fossem as mesmas nos dois períodos. Os temas eram nacionais, mas a cultura, em vez de popular, era palaciana e voltada para uma estatização da natureza local e de uma idealização da população nativa.

Com isto percebe-se que a elite política e intelectual dirigente do Império foi suficientemente competente para construir uma imagem e um discurso para o país, sustentar uma estrutura política estável e preservar a unidade de um enorme território, porém sua capacidade para dirigir, aperfeiçoar ou transformar as relações de produção no país real foi muito inferior. A natureza era bela, mas distante e pouco conservada. O índio era nobre, mas invisível.

A capacidade de intervenção do governo imperial, mesmo com os enormes que Pedro II dispunha era limitada, quando confrontada com os interesses privados, principalmente rurais. Por isto, mesmo que esta elite estivesse unida no combate da economia predatória da natureza, o que evidentemente não estava, é bem provável que sua capacidade de deter a destruição fosse restrita. Na prática a devastação, profundamente arraigada na sociedade esclavagista, continuou sendo a fonte de renda que sustentou a elite económica e a máquina do Estado brasileiro, independente da bela e confortadora imagem de harmonia natural e racial que os artistas românticos, financiados pelo Estado, passavam para a população.

Após consolidar esta imagem naturalística romantizada no país, o Império, capitaneado pelo próprio D. Pedro II passou a participar, com entusiasmo, das imponentes exposições internacionais que aconteciam na Europa e nos Estados Unidos. Nestas exposições começou-se a difundir a imagem de um enorme país exótico, com natureza exuberante e selvagem e com habitantes (indígenas) belos, nobres e liberais. Esta imagem oficial e estereotipada persiste. O Brasil segue sendo o local onde se encontra a maior e mais espectacular floresta do mundo, é um campeão da biodiversidade e a liberalidade nas praias e no Carnaval seguem sendo o chamariz preferencial para atrair os turistas para férias no país.

REFERÊNCIAS

ALENCASTRO, L. F. Vida privada e ordem privada no Império. In: História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. V.2. P. 12 – 94.

SCHWARCZ, L. M. As barbas do imperador. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

PÁDUA.J. A. Um sopro de destruição, pensamento político e crítica ambiental no Brasil esclavagista (1786 – 1888). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2002.

DEAN, W. A ferro e a fogo, a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

Por Edson Struminski

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