Euclides da Cunha e os fazedores de desertos

Euclides da Cunha

No ano de 2007 completaram-se 100 anos de “Contrastes e Confrontos” um livro pouco conhecido de Euclides da Cunha, autor do monumental “Os Sertões”. Se “Os Sertões” é um épico, um misto de diário de viagem, denúncia social, estudo antropológico e romance de uma batalha, escrito por alguém que era, em última análise, um correspondente de guerra, em Contrastes e Confrontos, o que sobressai é uma prosa sofisticada de um viajante, aplicada ao mais fugaz dos escritos, o artigo de jornal. De facto, no livro o que vemos é uma compilação de artigos publicados em jornais brasileiros entre os anos de 1894 e 1905 e publicados em 1907.

Euclides aparece neste livro como um apaixonado pela geografia. Mostra-se profético, lúcido e, ao mesmo tempo, actualizado com os fatos da época na Europa, Ásia e América, tanto quanto com os personagens do período, como quando analisa o perfil do Kaiser Guilherme II da Alemanha, que guiava “um povo sob a ameaça permanente de seu mesmo progresso”. Ao mesmo tempo seus escritos versam com categoria sobre os problemas brasileiros.

Uma fina ironia e uma subtil contundência perpassam os escritos de Euclides. Ele consegue, em uma única frase desancar, como no artigo “Solidariedade Sul-americana”, o finado império, a (então jovem) república brasileira (o período entre 1889 e 1930 é hoje chamado de República Velha) e, de quebra, seus inquietos vizinhos sul-americanos.

Diz ele: “A república nos tirou do remanso isolador do império para a perigosa solidariedade sul-americana”, uma condição em que “na actividade revolucionária e dispersiva da política sul-americana, apisoada e revolta pelas gauchadas dos caudilhos, a nossa placidez, a nossa quietude, digamos de uma vez, o nosso marasmo (do império brasileiro), delatavam ao olhar inexperto do estrangeiro o progresso dos que ficam parados quando outros velozmente recuam”, uma frase que parece escrita na medida para explicar alguns candidatos a ditadores que ainda pululam nos dias de hoje na América do Sul.

Como a maioria dos intelectuais do período, Euclides professava o credo positivista, de uma, até certo ponto ingénua, crença nos poderes milagrosos do progresso através da ciência. É com a lente do positivismo que ele viaja pelo país para registrar os embates entre uma civilização, sempre improvisada, com a natureza do seu país. No entanto, foi frente à imponência amazónica que esta crença vacilou. “No submeter a fantasia ao plano geral da natureza”, diz ele em um discurso para a Academia Brasileira de Letras, publicado naquele livro, “iludem-se os que nos supõem cada vez mais triunfantes e aptos a resumir tudo o que vemos no rigorismo impecável de algumas fórmulas incisivas e secas”. “Somos cada vez mais frágeis e perturbados”, Euclides reconhece. Ao mesmo tempo suas críticas são liberais, sem pretensões de mudar o mundo, ou mesmo os governantes, ainda que escritas de forma a sensibilizar as pessoas.

Assim em “Fazedores de Desertos”, publicado originalmente em 1901, e “Entre as Ruínas”, de 1904, não é a ninguém em particular que ele critica, muito menos a um governo. É o próprio avanço humano que ele avalia e seu efeito na vegetação, nos recursos hídricos, nos solos, no clima e na própria civilização que advém daí, das queimadas provocadas por uma agricultura que ainda aplicava métodos herdados do período colonial. São textos que confrontam riquezas passadas e farturas naturais com uma realidade arruinada.

Para seus leitores urbanos, afastados do drama de florestas sendo calcinadas para fornecer seu café matutino, o Euclides viajante misteriosamente lembrava que “temos sido um agente geológico nefasto e um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia”, para em seguida explicar didacticamente o processo de agricultura itinerante que ia tornando a terra cada vez mais desabrigada e pobre, para produzir exactamente o café consumido até nos países mais distantes, pois o café era uma cultura de exportação, a principal do país na época.

A devastação florestal era um ciclo que ele atribuía, nos primórdios, ao indígena brasileiro (uma verdade que sabe-se hoje, é apenas parcial), que não dispondo das “belas criações da indústria moderna “ ou dos “progressos rápidos da biologia e da química”, queimava a floresta, plantava em suas cinzas e, após alguns anos, abandonava a área exaurida de sua fertilidade natural, reiniciando o ciclo em uma nova área, deixando apenas uma vegetação arbustiva e frágil para trás, a “capoeira”.

Euclides considerava o colonizador, fosse ele o garimpeiro ou lavrador, o herdeiro deste modelo de uso da terra, agravando-o a ponto de tornar a paisagem uma ruína só, de natureza e de pessoas. Ele nos apresenta uma personagem, o morador deste ambiente desolado que seria anos depois fartamente caracterizado por Monteiro Lobato, outro grande e perspicaz escritor. Trata-se do caipira, que “sem o desempeno dos titãs bronzeados que lhe formam a linha obscura e heróica, saúda-nos com uma humildade revoltante” e que, “deixa-nos mais apreensivos como se víssemos uma ruína maior por cima daquela enorme ruinaria da terra”.

Mas Euclides não era um ingénuo defensor do progresso pelo progresso como muitos dos intelectuais e políticos da época (e mesmo de hoje) apregoam, como podemos ler em “Ao longo de uma estrada” de 1901. Com considerável lucidez ele criticava o “traço bem pouco animador que caracteriza a distensão das nossas redes de estradas de ferro”. A ele não escapou o fato de que as florestas estavam sendo consumidas nas caldeiras das marias-fumaças (a madeira era, então, o combustível das locomotivas) e para produzir os dormentes que sustentavam os trilhos, além de entender que as ferrovias “progridem arrebatadas por uma lavoura extensiva que se avantaja no interior à custa do esgotamento, da pobreza e da esterilização das terras que vai abandonando”.

Euclides contestou este modelo peculiar e oportunista de desenvolvimento, uma réplica do avanço herdado do período colonial, ainda hoje em voga em fronteiras amazónicas e que segundo ele “povoam despovoando. Não multiplicam as energias nacionais, deslocam-nas. Fazem avançamentos que não são um progresso” e que, por isto “vão, ao acaso, nesse seguir o sulco das derribadas, deixando atrás um espantalho de civilização tacanha nas cidades decaídas circundadas de fazendas velhas”, palavras terrivelmente actuais quando se trata de avaliar o efeito da implantação da estrutura de transportes nas fronteiras do Brasil. Ao mesmo tempo, prevendo o enorme debate que iria surgir no mundo mais tarde, ele clamava por uma civilização brasileira que confrontasse os interesse globais, pois temia que “a Amazónia, mais cedo ou mais tarde se destacará do Brasil…, como se destaca um mundo de uma nebulosa”.

Mas mesmo assim, era esta civilização itinerante e improvisada a responsável, segundo Euclides, por um vácuo na vida do país, pois para ele “não temos ainda uma ciência completa da própria base física da nossa nacionalidade, não temos ainda uma história”, constatação que o tornava, portanto, um contestador da versão romantizada da história brasileira vinda do período imperial, que eu próprio apresentei dias atrás em Ciência Hoje.

Os textos de Euclides da Cunha exigiam muito do leitor. Era alguém que escrevia com independência de julgamento, rigor literário e ausência de provincianismo. Por trás do comentarista de jornal estava um grande escritor, que como explica Olímpio de Souza Andrade, em uma das edições do livro, foi o primeiro brasileiro a levar para Portugal, “o colorido novo da língua viva da antiga dependência”, o que incluía novas palavras, a linguagem popular do sertão, os termos técnicos que o próprio Euclides introduziu no português, o vocabulário arcaico misturado com o novo. Pequenas obras-primas de precisão, como definiu o crítico português Pereira de Sampaio Bruno, diante da novidade representada pela prosa euclidiana na matriz da língua.

Por: Edson Struminski

REFERÊNCIAS:

CUNHA, E. Contrastes e confrontos. São Paulo: Cultrix, 1977.