Fundamentos de eco-história por Arthur Soffiati

Desmatamento para introdução de café no norte pioneiro paranaense, anos 30.
Foto: Reinhard Maack

Sei que já estão consagradas as expressões “história antiga”, história medieval”, “história moderna”, história contemporânea” e agora “história ambiental”. Não tentarei mais desconstruir estas denominações. Limitar-me-ei a empregar a expressão eco-história por entender que a história não é ambiental, mas história do ambiente, ou melhor, história das relações das sociedades humanas com o ambiente.

Por eco-história entendo uma clareira nova aberta pela história que busca compreender as relações das sociedades humanas com o ambiente. Se a intenção é ultrapassar a visão de uma natureza inerte, como a tratada pela história da economia, da sociedade e das representações mentais, é necessário precisar melhor o que se entende por natureza ou ambiente. Para tanto, o eco-historiador precisa ter conhecimentos básicos de geologia, ecologia e biologia, pelo menos. Sua abordagem deve ser mais transdisciplinar que multidisciplinar ou interdisciplinar. Em outras palavras, saberes de outras áreas do conhecimento devem estar presentes no seu próprio saber. Isto não significa que ele conhecerá geologia, ecologia e biologia tanto quanto um geólogo, um ecólogo e um biólogo. Mas ele deve dominar noções básicas de outras áreas do saber para dominar o seu.

Na verdade, o eco-historiador estuda as relações materiais e representacionais dos modos de produção com os ecossistemas. O conceito de modo de produção já não é mais marxista. Ele faz parte das ciências sociais. Contudo, deve-se estreitar ao máximo os conceitos de modo de produção e de formação social. Podemos aceitar que a colonização das Américas se insere no contexto da constituição do modo de produção capitalista detalhando suas especificidades. Este procedimento prudente afasta o historiador dos tipos ideais weberianos sem, contudo, perdê-los de vista.

Por outro lado, é imprescindível dominar os conceitos de ecossistema, ecótono, eco-região, bioma e ecosfera, pois é com as realidades expressas por eles que o eco-historiador irá lidar. A realidade ecossistêmica é um novo protagonista de história, assim como são os indivíduos, as classes sociais, as nações e os Estados. Se negamos a condição de sujeito de história aos ecossistemas, enfraquecemos a eco-história como campo de conhecimento. Reconhecendo a condição de sujeito dos ecossistemas e das realidades infra e supra-ecossistêmicas, admitimos que a natureza é dinâmica e que, ela mesma, tem uma história que só depende de nós quanto a sua compreensão.

Como se relacionam os modos de produção com os ecossistemas? A resposta a esta pergunta depende do conhecimento dos atores em cena. Precisamos conhecer as representações que uma sociedade faz do(s) ecossistema(s) com o(s) qual (quais) interage. Essas representações estão intimamente associadas à economia, à tecnologia e à organização social e política do modo de produção. Por outro lado, é preciso conhecer também a natureza do ecossistema, sua resiliência e os limites de sua homeostase.

Um ecossistema é perturbado se as ações de um modo de produção sobre ele não ultrapassam sua resiliência, ou seja, sua capacidade de autorregeneração. Se tais limites são ultrapassados, mais do que perturbação, ocorrerá a degradação do ecossistema, isto é, sua capacidade de autorregeneração será perdida, pelo menos se mantidas as condições causadoras da degradação. Imaginemos uma cidade construída num espaço ocupado anteriormente por uma floresta derrubada. As condições de autorregeneração foram suprimidas. Para o retorno da floresta, seriam necessários o desmantelamento da cidade e o seu replantio. No longo prazo, o abandono de um sistema cultural pode permitir a recuperação de um ecossistema degradado, como aconteceu com as cidades da civilização maia.

Os historiadores ainda sofrem uma influência muito grande do marxismo. Assim, a tendência é considerar que só o modo de produção capitalista, nas suas diversas formações sociais, é capaz de causar impactos perturbadores e degradadores aos ecossistemas. Entendo que nenhum modo de produção alcançou a capacidade de perturbar e degradar os ecossistemas como o capitalismo. Só ele foi capaz de provocar uma crise ambiental de caráter planetário. Não se pode esquecer, contudo, os casos da civilização índica e da Ilha de Páscoa.

Vou até mais longe, levantando uma possível polêmica: para os ecossistemas o que conta é o resultado. Não importa se sua perturbação ou degradação foi provocada por uma economia dominante ou dominada. A agricultura de uma Europa e de um Estados Unidos dominantes, no interior dos seus territórios, pode ser tão degradadora quanto uma economia dominada. Basta observar a destruição do Cerrado por uma agricultura voltada para exportação. Mas o historiador não deve descurar jamais das especificidades dos modos de produção.

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