Historiador Sílvio Marcus de Souza Correa

O historiador Sílvio Marcus de Souza Correa* é professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina- UFSC e tem se dedicado aos estudos de história ambiental no mundo atlântico, especialmente por meio da intervenção alemã nos ecossistemas do sul do Brasil e das antigas colônias alemãs na África atlântica (Togo, Camarões e Namíbia). O professor Sílvio M. de S. Correa concedeu uma entrevista à RBHA sobre os seus recentes trabalhos.

RBHA: Os trabalhos sobre história ambiental no mundo atlântico têm dado a devida importância à influência das populações de imigrantes sobre a modificação da paisagem?

Sílvio M. de S. Correa: Se considerarmos a “diáspora negra” como forma de imigração impelida ou forçada, podemos dizer que um dos arautos do pensamento ecológico no Brasil, José Bonifácio de Andrada e Silva, já acusava o escravismo como um modo de produção altamente nocivo àquelas gentes, mas também ao meio-ambiente. José Bonifácio criticou o modelo latifundiário, monocultor e escravista, pois o mesmo era o grande responsável pela destruição da Mata Atlântica. Porém, a imigração européia do século XIX teve um impacto ambiental que ainda não foi estudado com profundidade pelos historiadores. No Brasil meridional, a colonização européia se deu sob a forma de regime de mão-de-obra livre e de pequenas propriedades rurais. Mas isso não foi diferente em termos ambientais do que a plantation escravista na costa atlântica. Já na África entre 1880 e 1920, o colonialismo europeu consolidou um modelo agro-exportador, principalmente de produtos tropicais (cacau, café, borracha, sisal, amendoim, etc.) e uma exploração mineradora (carvão, hulha, cobre, diamantes, ouro, etc.) cujo impacto ambiental também não foi estudado de forma satisfatória. Essas economias coloniais fomentaram, igualmente, uma migração interna de populações africanas.

 

RBHA: A colonização e a imigração européias no sul do Brasil tiveram um grande impacto ecológico?

 

Sílvio Marcus de Souza Correa: A avaliação dos impactos ambientais de curta, média e longa duração é uma tarefa dificílima para os historiadores. Na maioria dos casos, é impossível inferir com exatidão o grau do impacto ambiental. O que podemos fazer é um cálculo aproximativo. Mas o que ocorre com maior freqüência na pesquisa histórica é o levantamento de vestígios, de indícios das intervenções dos colonos europeus nos ecossistemas. A partir deles, o historiador pode fazer correlações entre a derrubada da mata ciliar de um rio e o seu assoreamento ou das práticas de queimada com a extinção de certas plantas, etc. No livro “Terra de Promissão: uma introdução à eco- história da colonização no Rio Grande do Sul”, Juliana e eu tentamos tratar do impacto ambiental da colonização numa perspectiva histórica.

 

RBHA: A exploração dos recursos naturais da África colonial foi diferente entre os colonizadores europeus?

Hyphaene ventricosa - a maioria das palmeiras foram destruídas em 1915 devido a grande fome de 1915 pelos povo Owambo, nativos que habitam a região norte da Namíbia.Foto: Reinhard Maack, 1911.

Sílvio Marcus de Souza Correa: A exploração dos recursos naturais não foi diferente segundo os colonizadores. Franceses, ingleses, alemães, belgas, portugueses e espanhóis exploraram o que puderam em seus respectivos territórios na África. O que diferenciou uma exploração colonial de outra foram os recursos financeiros e as tecnologias disponíveis que não foram iguais em todos os casos. Por outro lado, os recursos naturais não eram os mesmos em toda a África colonial. Algumas regiões tinham um solo rico em minérios, outras eram mais propícias, por questões climáticas, composição do solo ou mesmo disponibilidade de mão-de-obra, para culturas como café, cacau, tabaco, etc.

 

RBHA: Quais seriam os impactos de curto prazo dessa exploração colonial em ambas as margens do Atlântico?

Sílvio Marcus de Souza Correa: Em primeiro lugar é preciso lembrar que tanto no Brasil meridional quanto na África ocidental, a interiorização européia foi tardia. No sul do Brasil, ela se deu pelos vales e teve as florestas hidrófilas como alvo. A ferrovia acelerou esse processo porque à medida que se desmatava, a madeira podia ser despachada pelos vagões. Mas a descida da madeira pelos rios por meio dos balseiros se manteve aonde os trilhos não chegavam. No caso da África atlântica, alguns rios importantes e seus afluentes passaram a servir de via fluvial para companhias de comércio européias somente no final do século XIX. A colonização européia no sul do Brasil foi responsável pela drástica mudança da paisagem. Em termos de ecologia humana, um dos seus maiores impactos de curto prazo se deu sobre a população indígena, principalmente xokleng e kaingang. Na África colonial, foi diferente a “disputa ecológica” entre os nativos e os adventícios, pois o colonialismo não logrou atrair um contingente expressivo de colonos europeus para o continente africano. Talvez com exceção da Argélia, onde os colonos franceses formaram um contingente significativo, e da África austral, onde o número de brancos (boers, ingleses e alemães) também implicou em disputas ecológicas, nas outras regiões foi mais a economia colonial do que a própria presença de colonos brancos que teve impacto sobre as populações nativas. Com a consolidação da economia colonial agro-exportadora e/ou mineradora, muito da organização tradicional das economias locais foi alterado, pois o recrutamento de mão-de-obra e a imposição de um sistema monetário e tributário minaram as bases de muitas comunidades africanas, algumas delas perderam totalmente sua autarquia.

RBHA: Em Curitiba há um parque com o nome do alemão Reinhard Maack. Ele foi um dos grandes nomes do pensamento ecológico no sul do Brasil. Mas antes de se radicar no Brasil, ele esteve na África. Qual foi sua posição em relação à exploração dos recursos naturais na colônia alemã do sudoeste africano?

Sílvio Marcus de Souza Correa: Para alguns pode ser uma ironia. O nome de Fernando de Noronha é hoje associado a um santuário ecológico, mas o nome do português estava ligado à exploração do pau-brasil no início do século XVI, quando ele recebeu o consentimento da coroa portuguesa para fazer esse comércio no Atlântico. O alemão Reinhard Maack (1892-1969) esteve sim na colônia alemã no sudoeste africano (atual Namíbia) entre 1911 e 1920. Trabalhou para a administração colonial no campo da agrimensura e também realizou pesquisas geológicas. Chegou a integrar a Schutztruppe em 1914. Mais tarde, tornou-se um dos defensores da teoria da separação das placas continentais ao comparar a geologia costeira do sudoeste africano com a brasileira. Em 1927, esteve no Brasil para participar de pesquisas geológicas. Alguns anos depois, voltou ao país para trabalhar para uma firma alemã de exploração mineral. Torna-se também proprietário rural no Paraná e desenvolve várias atividades econômicas, de pesquisa geológica e geográfica, e esteve envolvido com uma companhia de caminhos de ferro, etc. Em 1946, concluiu seu doutorado pela Universidade de Bonn. No período post bellum consolidou sua carreira acadêmica e de pesquisador. Foi professor na Universidade Federal do Paraná e recebeu, inclusive, a medalha de ouro “José Bonifácio de Andrada e Silva” em 1967. Não foi uma coincidência nem ironia que a geologia e a ecologia interessaram o homem de letras e ciências José Bonifácio e também Reinhard Maack. Mas uma revisão crítica do trabalho de Maack a serviço do colonialismo alemão na África e, mais tarde, para companhias de exploração extrativa e de transporte no Brasil pode relativizar o alcance de sua preocupação ecológica. Vale lembrar que outro pesquisador alemão, Leo Waibel, também esteve no sudoeste africano quase na mesma época que Reinhard Maack e também desenvolveu, posteriormente, pesquisa no Brasil. Waibel era geógrafo e fez duas expedições científicas pelas colônias alemãs na África. Assim como Maack, Waibel também defendeu uma racionalização da exploração dos recursos naturais em meio tropical subtropical. Mas o princípio de uma ciência instrumental ao desenvolvimento econômico defendido por Maack e Waibel é, hoje, muito criticado por alguns ecologistas, economistas e mesmo historiadores que vêem no desenvolvimento sustentável nada mais que um oximoro.

RBHA: Em sua opinião, pode-se dizer que a guerra dos alemães contra os hereros no sudoeste africano (atual Namíbia) foi desencadeada por um conflito sócio-ambiental?

Sílvio Marcus de Souza Correa: Sim. Mas não só por isso. Em vinte anos (1884-1904), os colonos alemães desenvolveram não apenas um comércio com os nativos, mas também uma economia baseada na pecuária no sudoeste africano. Isso implicou na apropriação de terras na Hererolândia e alhures. Os hereros eram pastores e se viram coagidos pelo colonialismo alemão. Os recursos hídricos naquela região são escassos e o deserto dificulta muito a pecuária em determinadas regiões da Namíbia. Isso significa que o pastoreio se limita a algumas regiões, depende dos reservatórios de água, do período de chuvas, etc. A big farm dos colonos alemães acabou sendo um obstáculo para o nomadismo dos pastores hereros. Da mesma forma, o sistema colonial provocou o endividamento dos hereros que não tinham muita opção a não ser vender seu gado ou trabalhar para os alemães para pagar suas dívidas. A situação se tornou insustentável a partir de 1904 quando os hereros passaram a atacar as fazendas dos colonos alemães. Mais do que resultado de uma disputa ecológica, a guerra também teve um fator ecológico decisivo para seu desfecho. Ganhou quem se apoderou das poucas fontes de água, impedindo assim o adversário de beber e dar água para suas mulheres, filhos e também para seu gado.

RBHA: Os alemães foram responsáveis por quais mudanças na paisagem africana?

Sílvio Marcus de Souza Correa: O colonialismo alemão na África atlântica teve curta duração. Ele começou no último quartel do século XIX e se desfez durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1919) quando os ingleses e franceses se apoderaram do Togo e dos Camarões e a atual Namíbia ficou sob o mandato da União Sul-Africana. Apesar de menos de 50 anos de colonialismo alemão, as paisagens africanas do Togo, Camarões e Namíbia foram alteradas. Cabos telegráficos e redes ferroviárias atravessaram a floresta do Togo e dos Camarões como também o deserto da Namíbia. Além disso, a infra-estrutura das cidades portuárias – como Lomé (Togo), Lüderitzbuch e Swakpomund Namíbia) – mudou a paisagem litorânea. Mas as fazendas dos colonos também foi um fator de alteração das paisagens africanas. Na Namíbia foi a pecuária dos colonos alemães responsável pela introdução de novas raças de gado vacum. Durante a guerra com os hereros, os soldados alemães receberam cavalos da Argentina. Os que não morreram durante a guerra, foram se reproduzindo ou mesmo se cruzando com outras raças de cavalo. No Togo e nos Camarões eram mais fazendas para cultura de banana, cacau, etc. Houve, então, a introdução de espécies mais lucrativas. O cacau, por exemplo, foi adaptado nas colônias alemãs já que a espécie nativa não era tão produtiva para o comércio atlântico. A plantation trouxe também o problema de pragas. Mas se o elemento humano é decisivo na modelagem da paisagem, não se pode esquecer que a guerra entre alemães e hereros (1904-1907) redundou num genocídio. Os hereros sumiram quase que totalmente daquela paisagem.

RBHA: A história ambiental do mundo atlântico tem outros pontos críticos para uma revisão historiográfica?

Sílvio Marcus de Souza Correa: Sim. Afinal, são mais de cinco séculos de trocas pelo Atlântico. Copiosa animália e plantas foram levadas de um lado para outro. Quando se olha um bananal na paisagem brasileira, não se percebe que a maioria dessas musáceas é de origem africana. Houve uma drástica alteração das paisagens atlânticas, especialmente aquelas costeiras com a introdução de latifúndios com monocultoras, exploração de florestas, etc. Além da revisão historiográfica, novos temas podem ser pesquisados. Além da introdução e da aclimatação promovida propositalmente pelos colonizadores europeus de espécies animais e vegetais, outras chegaram clandestinamente. Muitas delas provocaram uma invasão biológica. Esse é um tema que permite novos estudos em história ambiental. Da África austral, por exemplo, chegou à Argentina e ao sul do Brasil uma forrageira, uma Eragrostis plana, vulgarmente conhecida pelos brasileiros por capim-anoni. Este capim está se alastrando pelos campos do Rio Grande do Sul. Não deixa de ser outra “africanização” da nossa paisagem sulina. Enfim, muitas conexões entre Brasil e África podem ser estudadas pela história ambiental.

* Sílvio Marcus de Souza Correa é doutor pela Westfälische Wilhelms-Universität Münster (Alemanha), professor de História da África na Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador junto ao Laboratório de Imigração, Migração e História Ambiental (Labhima) da UFSC. http://www.labimha.ufsc.br/