Aleixo Garcia, Cabeza de Vaca, Hans Staden, homens de Sanabria, Ulrich Schmidel
Roteiro de Aleixo Garcia | Disputa pelo Prata
Durante muito tempo foi atribuída ao espanhol Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, governador (adelantado) e capitão-geral da província do Paraguai e Rio da Prata, a primeira travessia do atual estado do Paraná, no sentido leste-oeste, em 1541-1542. Sua façanha entrou para a História como empreendimento audacioso e primeiro grande reconhecimento do interior paranaense, segundo pesquisadores do calibre de Reinhard Maack.
Entretanto, o pioneirismo dessa façanha é questionado por historiadores. Cabeza de Vaca teria seguido os passos de Aleixo Garcia, náufrago português que, 20 anos antes, partiu de Florianópolis e seguindo o Caminho do Peabiru, atravessou o Paraná, descobriu o Paraguai e atingiu o Alto Peru. Chegou ao império Inca 7 anos antes do conquistador Francisco Pizarro e foi o primeiro europeu a ver Potosi, a maior reserva de prata do mundo.
Essa versão pouco conhecida veio a lume de forma sistematizada em 1999, no livro “A Saga de Aleixo Garcia – O Descobridor do Império Inca”, da jornalista curitibana Rosana Bond. Aleixo assume na história da América uma importância comparável – segundo muitos autores – à de Hernán Cortez, conquistador do México, e à de Francisco Pizarro, conquistador do Peru, aponta Rosana. Mas “A História lhe reservaria um duplo e injusto papel: ser um autêntico mito no estrangeiro e um quase desconhecido no Brasil”.
Aleixo era marinheiro da expedição de Juan Dias de Solís, que partiu em 1515 da Espanha com a missão de descobrir uma rota marítima ao oriente pela América do Sul. Em 1516, após descobrir o rio da Prata, Solís é devorado pelos índios. A esquadra tenta voltar à Europa. A nau de Aleixo afunda, 11 marujos se salvam e passam a viver na Ilha de Santa Catarina.
O náufrago português conviveu quase 6 anos com os índios cariós. Dominou idiomas e costumes de várias tribos. Eloqüente, arrojado, ele cativou os cariós, que lhe revelaram segredos de tesouros nos Andes e o caminho para chegar lá. Aleixo teria sido identificado com um Caraíba, profeta indígena de grande oratória, capaz de mover multidões em peregrinação atrás da Terra sem mal, pelo Peabiru, geralmente a leste.
Entre 1522 e 1523, Aleixo comandou quase 2 mil índios ao Alto Peru, travou combates e desceu ao Paraguai com boa quantidade de objetos de prata e ouro. Aleixo acampou na margem do rio Ipané e enviou provas do tesouro e uma carta aos náufragos da ilha. Planejava uma nova empresa ao Alto Peru. Uma noite foi morto misteriosamente e o tesouro sumiu. Contudo, o final trágico não impediu que Aleixo ganhasse reconhecimento. É considerado descobridor do Paraguai e faz parte da História da Bolívia, Argentina e Peru.
Rosana conta que vários espanhóis e latino-americanos narram a saga de Aleixo Garcia ao território inca, como Ruy Diaz de Gusmán, Pedro Sarmiento de Gamboa, Miguel Cabello de Balboa, Santa Cruz Pachacuti-Yamqui, Cieza de León, Antonio de Herrera e Manuel Dominguez. Sua fantástica epopéia estimularia a cobiça de aventureiros e a disputa entre as coroas portuguesa e espanhola pela Serra de Prata.
Roteiro de Aleixo Garcia
Rosana recompôs a provável rota da caravana de Aleixo, que após subir a serra catarinense, passou pelos atuais municípios de Jaraguá do Sul, Corupá e São Bento. Cruzou o rio Iguaçu já no Paraná, onde teria passado pelas atuais cidades de Rio Negro, Campo do Tenente, Lapa, Porto Amazonas, Palmeira, Ponta Grossa e Castro.
Aí o Peabiru tomava o rumo noroeste e Aleixo alcançou o rio Tibagi. Continuou na direção oeste e atravessou as cabeceiras dos rios Ivaí e Cantu. Cruzou o alto Piquri e, pela margem esquerda, alcançou o rio Paraná, perto de Guaíra. Este trecho englobaria os municípios de Tibagi, Reserva, Cândido de Abreu, Boa Ventura de São Roque, Pitanga, Santa Maria do Oeste, Palmital, Laranjal, Diamante do Sul, Guaraniaçu, Campo Bonito, Braganey, Iguatu, Corbélia, Anahy, Cafelândia, Nova Aurora, Iracema do Oeste, Jesuítas, Formosa do Oeste, Assis Chateaubriand, Palotina, Terra Roxa e Guaíra. Do rio Paraná, o grupo teria seguido em direção ao Chaco paraguaio e boliviano até o Alto Peru.
“O roteiro da viagem de Aleixo Garcia foi repetido (...) pelo governador Cabeza de Vaca, com apenas uma diferença. O adelantado chegou ao rio Paraná na altura da atual Foz do Iguaçu, e Aleixo o teria feito alguns quilômetros ao norte, por Guaíra”. Esse desvio abrangeria o trajeto: Tupãssi, Toledo, São Pedro do Iguaçu, Vera Cruz do Oeste, Ramilândia, Medianeira, Serranópolis do Iguaçu, São Miguel do Iguaçu e Foz do Iguaçu. Cabeza de Vaca foi o primeiro europeu a contemplar as cataratas da foz do rio Iguaçu.
Disputa pela prata
A aventura de Aleixo, segundo Rosana, teve grande influência na história da conquista da América do Sul até a primeira metade do século 16. “Por mais de 20 anos, Portugal e Espanha (principalmente esta) financiaram expedições marítimas, fluviais e terrestres para tentar descobrir o caminho de Aleixo Garcia e sua Serra de Prata”.
As expedições espanholas de Sebastião Caboto e Diego Morguer quase trocaram chumbo ao descobrir que procuravam a mesma coisa: o tesouro de Aleixo. Desistiram a caminho do rio Pilcomayo. “Tudo lhes era favorável, porém lhes faltou o que sobrara em Aleixo Garcia: decisão, coragem, audácia...”, relatou em sua Carta Luiz Ramirez, tripulante de Caboto.
Martim Afonso de Souza, enviado pela Coroa Portuguesa ao Brasil em 1531 para afastar franceses da costa e fundar feitorias, tinha a missão secreta de achar a Serra de Prata. A Coroa baseou-se em relato de Henrique Montes, náufrago da nau de Aleixo. A expedição foi montada às pressas (menos de um mês da chegada de Martim) – 80 homens e um grupo de índios, chefiados por Pero Lobo e Francisco Chaves, único branco vivo dos 5 que acompanharam Aleixo.
A caravana partiu do litoral paulista em 1º de setembro de 1531. Entrou no atual estado do Paraná e seguiu a oeste pelo Peabiru. E desapareceu!
Desmotivado, o governador deixou o Brasil em 1532, depois de fundar a cidade de São Vicente no litoral paulista e distribuir sesmarias.
Mesmo após a conquista do império inca, a procura pelo El Dorado continuou. Das expedições espanholas que partiram em busca do caminho de Aleixo, Rosana destaca duas pelo caráter oficial: as de Juan de Ayolas e de Alvar Nuñes Cabeza de Vaca. A caravana de Ayolas partiu da atual Buenos Aires em 1536, com 180 homens e índios chaneses. Contou com ajuda de um índio do grupo de Aleixo e obteve êxito. Na volta lutou com tribos da região. Perto do rio Paraguai, com muitos índios carregados de metal, Ayolas e os sobreviventes foram mortos pelos índios paiaguás, como seria descoberto mais tarde, e o tesouro jamais foi recuperado.
Cabeza de Vaca tentou repetir a aventura de Aleixo desde que desembarcou na Ilha. Partiu em 2 de novembro de 1541, com 250 homens, 26 cavalos e um grupo de índios. Refez o caminho de Aleixo pelo Peabiru. Chegou a Assunção em 11 de março de 1542 e em 1543 decidiu procurar a Serra de Prata. “Embora em nenhum momento, o adelantado tenha admitido, claramente, que procurava as riquezas descobertas por Aleixo, diversas passagens do livro revelam limpidamente sua verdadeira intenção”, observa Rosana. Aleixo é citado 14 vezes e a busca por ouro e prata é mencionada com freqüência.
A expedição do adelantado chegou a contar com 6 mil homens e realizou longas incursões, como registrou seu escrivão Pero Hernández no livro Comentários. “Em apenas três meses ele descobriu terras e caminhos que em 12 anos eles (os homens de Domingo de Irala, ex-governador) não conseguiram descobrir”. Apesar de bem informado, armado e equipado, Cabeza de Vaca não obteve sucesso em sua missão. E teve um final triste. Vítima de um motim liderado por Irala, para recuperar o posto de governador, foi preso e enviado doente à Espanha, como prisioneiro. Lá foi processado e amargou oito anos de prisão.
Ulrich Schmidel: rota oposta
O alemão Ulrich Schmidel, especialista em armamento que viveu 18 anos na América do Sul a serviço das tropas espanholas, foi o primeiro europeu a atravessar o novo continente de oeste a leste, de Assunção até São Vicente, utilizando-se do Peabiru, em direção contrária à de Aleixo Garcia e de Cabeza de Vaca. Escoltado por 20 índios cariós, Ulrich partiu em 26 de dezembro de 1552 e chegou a São Vicente em 13 de junho de 1553, a tempo de embarcar em uma nau e voltar a Straubing (Baviera) para ver seu irmão doente.
Enfrentar selvas fechadas, índios hostis e fome em 2500 quilômetros de caminhos terrestres e fluviais por 6 meses foi um fato extraordinário para a época. Reinhard Maack, com base em mapas e globos antigos, reconstituiu o roteiro de Ulrich, pondo fim a uma velha polêmica. É o que trata seu estudo “Sobre o Itinerário de Ulrich Schmidel Através do Sul do Brasil (1552-1553)” , publicado pela Universidade Federal do Paraná em 1959.
Para Maack o relato da viagem de Ulrich merece atenção especial por mencionar informações geográficas, distâncias e povoados indígenas que permitiram apontar as primeiras regiões do interior de Santa Catarina e Paraná nos mapas e globos antigos.
Ulrich e seus cariós fizeram um caminho sinuoso ao sul, até a Província de Missiones (Argentina). No toldo de Gingie, na grande curva do rio Paraná rumo ao rio Paraguai, o grupo marchou para leste. Seguiu pela margem do rio Uruguai, a oeste de Santa Catarina, em regiões habitadas pelos tupis. Em Carieseba a caravana foi perseguida. Do toldo de Biessaie o grupo avançou para o norte. Entrou no sudoeste do Paraná, cruzou o rio Iguaçu e atingiu o Peabiru.
A caravana desviou o ramal norte de Campo Mourão, pelo oeste do rio Guia (hoje rio Mourão), cruzou o rio Ivaí e chegou ao curso médio do Pirapó. Seguiu até o Paranapanema e, mais ao norte, ao rio Anhembi. Por uma trilha antiga seguiu a leste, cruzou com João Ramalho em Santo André da Borda do Campo, chegando em São Vicente.
Ulrich presenciou a chegada de Cabeça de Vaca em 1542 e, em1551, de um grupo de homens de Don Diego de Sanabria em Assunção. Guiado por cariós, esse grupo refez o caminho do adelantado. Sanabria, que perdera uma nau perto da Ilha, despachou parte da tripulação a Assunção por terra, como relata Hans Staden. Portanto, Ulrich tinha conhecimento da existência do Peabiru.
Os espanhóis desconheciam o alto rio Paraná, os caminhos ao norte e a continuidade do Peabiru no estado do Paraná, esclarece Maack. Por isso Cabeza de Vaca e os homens de Sanabria abandonaram o Peabiru nas nascentes do Cantu. Ulrich, baseado nesse conhecimento, montou seu plano de viagem pelo sul e usou os cariós como guias. Os índios conheciam o litoral e eram bons guerreiros em terra, como ele conta em seu relato, publicado em 1567 na Alemanha e em várias edições posteriores.
Essas primeiras expedições abriram caminho aos espanhóis para reconhecimento e exploração do território do lado esquerdo do rio Paraná, o atual estado do Paraná.
Leia mais sobre: O Paraná dos primeiros tempos
*Silvestre Duarte - jornalista e pesquisador, autor do livro "Campos do Mourão - Imagens do Tempo na Ponta do Serrado" (ainda em elaboração ou não concluído).






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