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As famosas expedições de Spix, Martius, Saint-Hilaire, Langsdorff e do Príncipe de Wied ao Brasil organizadas como conseqüência da Abertura dos Portos (1808), são tradicionalmente as mais conhecidas, celebradas e documentadas pela História. E com todos os méritos. Entretanto, a vinda de estudiosos e pintores austríacos para o estudo de nossa fauna e flora e respectiva documentação pictórica, mereceria muito maior destaque, em particular pelo legado construído por um destes naturalistas: Johann Baptist Natterer.
Goeldi (1896) descreveu Natterer como “o mais zeloso e mais fecundo colecionador zoológico que pisou a América do Sul”; depois dele, vários outros autores concordaram com essa afirmação, incluindo detalhes cabais de sua impressionante contribuição a todos os campos da ciência contemporânea (Ihering, 1902; Neiva, 1929; Mello-Leitão, 1941; Pinto, 1979; Hershkovitz, 1987; Sick, 1997; Vanzolini, 1996; Straube, 2000). E
Em matéria divulgada pela revista “Super Interessante” (Edição 148 de janeiro de 2000: “O homem que colecionou o Brasil”), mais detalhes sobre o tema: “A extensão e a diversidade do material coletado por Natterer faz dele o mais importante pesquisador de campo estrangeiro neste País” (depoimento de Dante M.Teixeira do Museu Nacional do Rio de Janeiro). O naturalista compôs um acervo de valor incalculável e os milhares de exemplares obtidos foram destinados ao Museu de História Natural de Viena e algumas outras coleções européias, representando as mais variadas áreas do conhecimento: zoologia, botânica, mineralogia, parasitologia, etnografia, lingüística, numismática, sociologia etc.
Para se ter uma pequena idéia de sua produtividade, estima-se que obteve quase 13.000 espécimes de aves, coletados e taxidermizados, bem como ovos e ninhos, bem como diversos objetos anatômicos (crânios, musculatura) guardados em álcool e mais centenas de páginas redigidas em diários e anotações de campo, com descrições detalhadas sobre seus hábitos e comportamento (Papávero, 1971-1973).Não é nada absurdo afirmar que nenhum outro viajante reuniu tamanho acervo sobre a fauna e flora brasileira em todos os tempos. O grande problema na divulgação do trabalho de Natterer foi a demora que ocorreu para que alguém estudasse seu material. Tendo retornado à Áustria em 1835, depois de 18 anos explorando o território brasileiro (Vanzolini, 1993), foi apenas três décadas depois que a maior parte de seus exemplares zoológicos foram estudados, graças ao trabalho laborioso de Auguste von Pelzeln (1871,1883). Os naturalistas viajantes que acabaram mais célebres, divulgaram rapidamente o resultado de suas peregrinações, visando a prioridade das descobertas, ao contrário de Natterer que aqui permaneceu por quase duas décadas, enviando - de quando em quando – lotes de amostras para a Áustria.
A conseqüência disso foi que a divulgação de livros narrando às outras expedições deu-se quase que imediatamente ao retorno dos naturalistas aos seus países de origem e, assim, o conhecimento sobre nossa fauna e flora acabou sedimentando-se basicamente ao redor deles, que receberam os devidos créditos e reconhecimento pelas descobertas muito antes de Natterer. Com isso são raras as fontes bibliográficas, anteriores à década de 50 do Século XIX, que tratam da presença de Natterer no Brasil e muitas vezes o próprio material compilatório subseqüente acaba por não citá-las, deixando uma grande lacuna para as futuras aferições documentais, indispensáveis à historiografia. Recentemente, pudemos localizar uma valiosa menção à Missão Austríaca ao Brasil: uma notícia publicada em um livro de caráter enciclopédico de grande divulgação na Europa no início do Século XIX.
Esse material possivelmente foi uma das fontes utilizadas por autores mais antigos que revisaram o trabalho de Natterer, como Emil A. Goeldi e Hermann von Ihering, pelas coincidências de detalhes. Trata-se do "Edinburgh Annual Register", um tipo de retrospectiva jornalística idealizada por Walter Scott e James Ballantyne, que aparecia todos os anos, por iniciativa de diversos editores da Escócia e Inglaterra. No volume 11 subdividido em duas partes), referente ao ano de 1818 e publicado em 1822, foi divulgado esse que seria um dos mais importantes momentos da História Natural no Brasil: o envio de naturalistas e pintores que, por iniciativa do Imperador da Áustria, acompanharam a vinda da Princesa Leopoldina ao Rio de Janeiro. Nestes volumes eram noticiados inúmeros acontecimentos desde despachos legais, decisões, pronunciamentos e discursos da corte, relatórios de sociedades culturais, literárias, sociais, etc, aspectos agrícolas, de comércio, religiosos, até patentes de novas invenções, casamentos, obituários, resenhas e poesias. Uma das escassas notícias alusivas ao Brasil dava conta do período de insurreições deflagradas em Pernambuco como descontentamento generalizado contra algumas ações da monarquia ("ln the extensive country of Brazil a general spirit of disaffection to the dominion of the mother country was widely diffused': p.206-277), ao mesmo tempo que demonstrava contrariedade ácida aos atos da coroa portuguesa contra essas ações revolucionárias ("This cruel and tyrannical measures sufficiently betrayed the fears of this imbecile government" p.207). Junto a esse episódio também consta uma ampla descrição da situação tensa em que se encontravam as Américas (especialmente Venezuela, Colômbia, Equador e Peru) em decorrência da revolução liderada por Simón Bolívar pela independência das colônias da América espanhola. O texto integral publicado e alusivo a Natterer e à Missão Austríaca é o que segue (Scott, 1822:166-167):
"Voyage of Discovery: Natural History.
- On occasion of the departure of the Archduchess Leopoldina for Rio de Janeiro, the Emperor of Austria determined to send under her protection, and forming part other suite, a number of scientific men. Naturalists,
and other literati. These are commissioned to examine the principal provinces of Brazil, and to make observations and researches in every departments of science, of the arts, and of natural phenomena: they
will also make collections of articles of natural history, and others, proper
to enrich the cabinets and museums of Vienna. The general direction,
the conditions, and plan of this literary and scientific expedition, the
choice of the gentlemen engaged, &c. has been confided to Prince Metternich, who has named the following company
J. C.Mikan, MD. Professor of Botany
in the University of Prague, &c.
who has the superintendence of the
department of Botany and Natural
History.
M.Natterer, one of the keepers of the
Imperial Cabinet of Natural History;
this gentleman's department
discovery is Zoology.
M. Thomas Euder, landscape painter.
M.Sochor, a huntsman in the service
ofthe Imperial Archdnke; from whose
activity in the chace is much expected.
M.Schott, inspector ofthe Imperial
Botanic Garden of the Belvedere.
Professor Pohl, of Prague, whose department
is Mineralogy.
John Buchberger, painter of flowers
And plants.
M.Schiich, Librarian of the Archduchess,
Now Princess of Brazil.
Of these nine persons the first five embarked at Trieste, and sailed for Brazil, April 5, 1817. The other four embarked from Leghorn with the Archduchess. M. Schribes, director of the Imperial Cabinet of Natural History at Vienna, will receive the correspondence and publish the results. To these nine literati the King Bavariahas added two members of the Academy at Munich: Dr Martins and Dr Spix, conservator of the Zoologic collections. "
Nota do autor: No texto há erros que podem ser considerados tipográficos, visto a semelhança das letras "u" e "n". O pintor Thomas Ender aparece como "Euder" e o famoso botânico Martius como "Martins".Pode-se notar de antemão, que os nomes citados e mesmo algo da sua seqüência originalmente informada coincide, em grande parte, aos textos publicados no fim do Século XIX e começo do Século XX sobre a grande expedição. Desta forma, essa poderia ser uma das fontes bibliográficas que subsidiaram os estudos feitos por Goeldi (1896) que, por sinal, foi o artigo que baseou todos os estudos subseqüentes a respeito do tema. Ihering (1902:21), por exemplo, adiciona que suas fontes seriam parcialmente "o referido artigo do Dr. Goeldi" (no caso: Goeldi, 1896) e "parte verbalmente do Sr. Barão Schrockinger von Neuenberg e parte das publicações do Dr. August von Pelzeln, que tratam das aves e mammiferos colligidos por Natterer.”
Referências bibliográficas
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Mül!eriana: Sociedade Fritz Müller de
Ciências Naturais:
http://www.mulleriana.org.br
Email:
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