Os colonos europeus e a Floresta de Araucária no Médio Vale do Iguaçu

        Em linhas gerais o processo histórico da colonização européia no Sul do Brasil foi caracterizado pelo predomínio da pequena propriedade, a mão de obra familiar, a inexpressividade ou mesmo a ausência em muitas regiões do trabalho escravo e a significativa presença de imigrantes não-ibéricos decididos a permanecer na “nova” terra. Essas características influenciaram, em grande medida, na atual realidade social, econômica e cultural do Sul do país. Esses temas já foram tratados em um sem número de trabalhos de historiadores.

         Mas muito poucos trabalhos se dedicaram até agora em analisar a influência que os colonos europeus e seus descendentes tiveram no meio ambiente das regiões onde se estabeleceram, os usos que fizeram das plantas e animais nativos dessas regiões, e o impacto ambiental que seu modo de vida e as plantas e animais trazidos consigo causaram. Embora outros trabalhos tenham feito referências a derrubada das matas empreendidas pelos colonos, a instalação de pequenas serrarias, ao plantio e criação de animais trazidos da Europa, isso tem sido apenas comentários periféricos em pesquisas cuja temática central são aspectos econômicos, culturais ou sociais de determinadas regiões.

         A história ambiental, campo de pesquisa incipiente no Brasil, mas já bem conhecido nos Estados Unidos e na Europa, oferece aos historiadores essa nova abordagem para se trabalhar com temas tradicionais, como a colonização européia, inserindo a questão ambiental na área de História. Segundo Donald Worster, um dos historiadores norte-americanos mais citados nessa área, a história ambiental se desenvolveu a partir dos anos 70, com o crescimento da preocupação pública com o meio ambiente e ascensão dos movimentos ambientalistas. Como metodologia Worster, e também José Augusto Drummond[1], defende a interdisciplinaridade, especialmente com as ciências naturais:

No seu conjunto, as ciências naturais são instrumentos indispensáveis para o historiador ambiental, que precisa sempre começar com a reconstrução de paisagens do passado, verificando como eram e como funcionavam antes que as sociedades humanas as penetrassem e modificassem.[2]

         A partir desse treinamento – que evidentemente tem muitas limitações – em ciências naturais os historiadores estariam melhor preparados para avaliar os impactos que as diferentes sociedades causaram na natureza, ou mesmo os usos que essas sociedades fizeram do meio ambiente.

         Para ilustrar essa questão, podemos observar em jornais, relatórios de governo e documentação das empresas colonizadoras, do final do século XIX e início do século XX, a frequência da menção à “mata virgem” para as áreas ainda não colonizadas. Os colonos europeus, vindos de uma Europa densamente povoada e há muito exígua em áreas florestais, viam nas florestas maduras das colônias ainda não “desbravadas”, uma natureza intocada pela mão humana.[3]

         Mas essa natureza intocada é muito mais o fruto do espanto do europeu com a exuberância florestal encontrada, e talvez também de elementos culturais herdados do romantismo europeu, pois indígenas de diversas matizes culturais e também caboclos já habitaram ou extraíram sua subsistência dessas florestas. Nesse sentido, estudos etnobotânicos como o de W. Balée[4] sobre a Floresta Estacional Semi-decidual no Paraná ajudam os historiadores ambientais a entender melhor o relacionamento das diferentes culturas com o meio ambiente, e também ter cuidado com as noções de “mata virgem” ou de ser humano como inevitavelmente destruidor da natureza.

         Esse quadro geral do europeu se deparando com a “mata virgem”, em uma área que já havia sido habitada por indígenas e caboclos também se aplica a região do presente artigo.

         A região estudada compreende cerca de 5 mil km², correspondente as áreas antigas dos municípios vizinhos de Porto União (SC) e União da Vitória (PR), localizados respectivamente no norte de Santa Catarina e sul do Paraná. A região era originalmente quase toda coberta pela Floresta Ombrófila Mista, ou Floresta de Araucária, com pequenas áreas de campos naturais em áreas acima de 1100m no sul de Porto União. O botânico Roberto M. Klein, estudando as florestas de Araucária no planalto sul-brasileiro, subdividiu estas em cinco tipos, sendo dessa região característica a formação Araucária (Araucaria angustifolia) e imbuia (Ocotea porosa):

Uma grande parte do assim chamado primeiro planalto do Estado de Sta. Catarina, compreendendo principalmente os municípios de Canoinhas, Mafra, Itaiópolis, Papanduva, Porto União, Curitibanos e Caçador, assim como toda a parte central do Estado do Paraná, eram cobertos na sua maior parte, por um agrupamento vegetal muito característico, dominado pela Ocotea porosa (Imbuia, Embuia), que imprimia por grandes extensões desta região o aspecto fitofisionômico.[5]

         A região também é extremamente rica em erva-mate (Ilex paraguariensis), destacando-se a parte leste de Porto União.[6]

         Os municípios são cortados de leste para oeste pelo rio Iguaçu, e por numerosos afluentes de tamanho médio e pequeno que descem das montanhas formando muitas cachoeiras. As altitudes variam de 700-750 metros nas margens do Iguaçu a mais de 1200 metros na região de Matos Costa (Porto União) e na Serra da Esperança (União da Vitória). Essa última é divisora do segundo para o terceiro planalto paranaense. O clima da região, segundo a classificação de Koppen, é o temperado (Cfb), com temperaturas médias anuais de 15 a 18° C, e nas altitudes mais elevadas, mais de 25 geadas por ano.[7]

         Os Xokleng, povos nômades que viviam da coleta, caça e pesca nas florestas, e cuja cultura remonta, segundo Walmir da Silva Pereira[8], a cerca de 5 mil anos atrás, foram provavelmente os primeiros habitantes da região. Sérgio Ferreira dos Santos, em pesquisa arqueológica realizada há alguns anos no vale do Rio Vermelho, afluente da margem direita do rio Iguaçu, encontrou indícios de seres humanos vivendo na região entre 3 e 4 mil anos atrás.[9] A despeito de toda essa história anterior praticamente desconhecida e negligenciada pelos historiadores, os indígenas acabaram, quando sobreviviam, sendo expulsos de suas terras e diluídos na periferia da sociedade moderna. Apenas um pequeno grupo de cerca de 50 pessoas foi alvo do confinamento em 1918 numa área de 150 alqueires no município de Porto União.[10]

         Uma segunda fase de ocupação humana também é dificilmente datável, correspondendo a fase de ocupação pelos caboclos. Desde 1842, quando Pedro da Siqueira Cortes descobriu um vau[11] no rio Iguaçu, no local da futura União da Vitória, encurtando o caminho dos tropeiros oriundos de Palmas em direção a Palmeira, iniciou-se um afluxo de pessoas para a área das cidades atuais de União da Vitória e Porto União, bem como nos sertões dos arredores.

         Dessa época até as primeiras décadas do século XX, a atividade econômica predominante, e que contribuiu para um maior afluxo de pessoas para a região foi a extração da erva mate, planta abundante no interior da Floresta Ombrófila Mista, ou Floresta de Araucária. A extração da erva exigia uma certa mobilidade pelo território, requisito ao qual o caboclo posseiro, sem títulos de propriedade, se adaptava bem. Seu modo de vida simples, sem condições de acumulação de bens, e praticando uma agricultura de coivara bem adaptada ao ambiente[12], significou, em termos ecológicos, uma conservação, ou pelo menos, pequenas alterações no estado maduro em que se encontravam as florestas da região. Estudar melhor esse período também é importante para evitar as noções de vazio demográfico e de inauguração da história a partir da chegada dos imigrantes, como apontou Telmo Marcon para o caso do Oeste de Santa Catarina:

A região, no entanto, não estava vazia, pois muitos caboclos e luso-brasileiros nela sobreviviam dos abundantes recursos existentes na natureza e/ou cultivando pequenos roçados. Com a crescente migração para o Oeste, na década de 1930, alguns grupos constituídos por colonos, madeireiros e colonizadoras, conquistaram uma posição hegemônica, identificados posteriormente como sendo os inauguradores da história propriamente dita. Grande parte da historiografia dominante consagra, ainda hoje, um destaque especial à presença destes sujeitos, corajosos desbravadores e inauguradores da história regional.[13]

         Com relação a chegada dos imigrantes a região de União da Vitória e Porto União, percebemos também o destaque especial por parte da historiografia local acompanhado do discurso do pioneirismo do imigrante. Esse discurso do pioneiro, do imigrante inaugurando a história dos espaços “desabitados” do interior, tem se revelado uma constante nas áreas de colonização do Sul do Brasil.[14] Não só em relação a historiografia, mas a própria memória local está bastante impregnada desse discurso, como fica demonstrado através de um monumento construído em 1998 na localidade (colônia) de São Miguel da Serra, em Porto União. O monumento representa o colono pioneiro, com o machado na mão, trabalhando no desmatamento da floresta, preparando a área para a instalação de um modo de vida agrícola estranho à história natural dessa paisagem. Abaixo, estão os nomes dos pioneiros da colônia e suas datas de nascimento e morte, e também algumas palavras em sua homenagem:  “A nossa homenagem e imorredoura gratidão. Uma modesta capela qual esta erguida com muito trabalho e suor fez aos pioneiros na mata virgem, o alheio ambiente acolhedor.” A poucos passos dali, ao lado da igreja, os túmulos do cemitério também fazem referência aos pioneiros e existem algumas inscrições em homenagem a estes.

         O que é importante ressaltar nessa crítica ao discurso do pioneiro é que não se trata de um atentado contra a memória dos descendentes dessas pessoas homenageadas, que tem orgulho de seus antepassados a pouco chegados em terras hostis ao seu modo de vida. Mas julgamos necessário relativizar esse discurso por encobrir outros personagens históricos como indígenas e caboclos, sendo que os primeiros provavelmente viveram séculos na região de São Miguel da Serra.[15]  Além disso, do ponto de vista ambiental, o modo de vida pioneiro, de devastação quase completa de florestas em avançado estágio de sucessão ecológica, que parece se reproduzir hoje nas bordas da Amazônia, tem se revelado insustentável, já que as fronteiras agrícolas ou as grandes extensões de florestas nativas já não existem mais, pelo menos no Sul do Brasil.

         Os primeiros imigrantes a chegarem a região de Porto União e União da Vitória constituiu-se de um pequeno grupo de 24 pessoas, na maioria alemães, trazidos pelo Coronel Amazonas de Araújo Marcondes em 1881. O mesmo Coronel Amazonas foi o inaugurador da navegação a vapor no rio Iguaçu em 1882, e instalou a primeira serraria na região, próximo a cidade, na margem direita do Iguaçu, em 1884.[16] Portanto, o início da exploração intensiva das florestas da região coincide com o momento da chegada dos primeiros colonos, sendo dessa origem muitos dos futuros madeireiros, embora a maioria deles nunca tivessem condições econômicas ou interesse em montar uma serraria.

         Mesmo que alguns colonos já estivessem chegando desde o final do século XIX, e também estivessem sendo fundadas nessa época colônias no vale do rio Iguaçu, a colonização ou loteamento de terras para colonos na região só vai tomar impulso significativo a partir da construção e chegada da ferrovia, em 1904. Em 1910 estava concluído o trecho entre União da Vitória e Marcelino Ramos (RS), cortando a região de extensas florestas de Araucária inexploradas do Vale do Rio do Peixe. Nesse momento, a empresa construtora Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, do engenheiro João Teixeira Soares, já estava sob controle acionário da norte-americana Brazil Railway Company, que em 1909 ainda criou a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, a fim de explorar os ramos da colonização e extração madeireira.[17]

         Nesse contexto, a Companhia E.F.S.P.R.G. funda a colônia de Nova Galícia em 1909, no interior do atual município de Porto União. Um ano depois, a colônia já era habitada por “247 famílias de diversas nacionalidades: polacos, ruthenos, allemães, austriacos, suissos e francezes. A grande maioria é de polacos: 170 famílias para 60 ruthenos e o resto de nacionalidades diversas.”[18]

         Com a conclusão da ferrovia, incluindo o ramal ligando União da Vitória a São Francisco do Sul em 1917, são concedidas inúmeras áreas para colonização. Em 1920, o jornal “A União” noticiava a existência em Porto União, de “seis emprezas com áreas colossaes já colonizadas e por colonizar, …”.[19] As colônias recém fundadas eram: Nova Galícia, Valões, São Pedro, São Miguel e Maratá. Provavelmente a outra seria a colônia Francônia, de H. Hacher & Cia. Além dessas, outras colônias foram surgindo tanto em Porto União como em União da Vitória, com imigrantes vindos das colônias mais antigas do Rio Grande do Sul ou diretamente da Europa.

         Entre as colônias de União da Vitória, destaca-se a colônia Cruz Machado, montada pelo governo federal, inaugurada em 1910. Um ano depois, a população da colônia alcançava cerca de 4.500 habitantes, sendo quase inteiramente de poloneses.[20] Em 1933, a população chegava a 10.600 habitantes, agora com predominância de brasileiros ou caboclos (4.894), poloneses (3.793) e também um expressivo contingente de 1.600 alemães.[21]

         Além dessa, existiram uma série de outras colônias menores em União da Vitória, entre as quais as colônias de Antonio Cândido (1892), Vila Zulmira (1897), Amazonas (1907) e Porto Vitória (1907).[22]

         Quanto aos grupos étnicos europeus, de maneira geral nas colônias de União da Vitória e Porto União, predominavam os poloneses, seguidos dos alemães e dos ucranianos. Os italianos, espanhóis e portugueses e outras etnias européias eram em número bem pequeno se comparado aos primeiros.

         Nessas colônias, de maneira geral, os colonos ou as empresas colonizadoras precisaram, em primeiro lugar, derrubar as florestas de seus pequenos lotes a fim de poder introduzir as culturas agrícolas como o milho, feijão, mandioca, batatas, abóboras, além das culturas totalmente “estranhas” trazidas pelos europeus, como trigo, centeio, cevada, aveia, linho e linhaça. Além disso, as criações de bovinos, cavalos, ovelhas, cabras, suínos e galinhas, úteis para o transporte, e fonte de carne, leite e banha, também exigiam amplas áreas desmatadas e uma pressão constante sobre as florestas. Toda essa biota portátil, como chamou o historiador ecológico Alfred Crosby, e que incluía ainda as doenças (microorganismos) que migraram juntamente com os europeus, foram fundamentais para seu estabelecimento e dominância nas regiões temperadas da Terra.[23]

Qualquer teoria respeitável que tente analisar o avanço demográfico dos europeus deve explicar pelo menos dois fenômenos. O primeiro é o abatimento do moral e em muitos casos a aniquilação das populações indígenas das Neo-Europas. A derrota que levou à extinção dessas populações não foi apenas resultado da superioridade tecnológica da Europa. (…) Em segundo lugar, devemos explicar o assombroso, quase assustador, sucesso da agricultura européia nas Neo-Europas.[24]

         Do mesmo modo, Crosby demonstra ao longo dos capítulos do Imperialismo Ecológico, que o meio ambiente das regiões colonizadas nunca mais foram os mesmos, com inúmeras extinções de espécies vegetais e animais nativos e a introdução de muitas espécies européias concorrentes.[25] Um dos casos mais ilustrativos do poder de disseminação de algumas plantas européias é o da tanchagem ou plantago:

Hoje ela cresce selvagem em todos os continentes exceto na Antártida, e também na Nova Zelândia em algumas ilhas. É uma das ervas mais resistentes do mundo e aparentemente permanecerá conosco para sempre.[26]

         Mas o impacto ambiental da chegada dos imigrantes europeus ou seus descendentes no Vale do Iguaçu não se limita a abertura de áreas para a agricultura, e a introdução de sua biota portátil. É preciso considerar também que as empresas colonizadoras, cujos proprietários eram frequentemente descendentes de imigrantes, foram empreendimentos que se dedicaram a exploração madeireira como uma de suas principais fontes de renda. Isso é válido para diversas regiões onde elas atuaram.[27] Além de prover madeira serrada à construção de casas, igrejas, estábulos, cercas, pontes e outras benfeitorias, as serrarias montadas nas colônias também tinham o objetivo de extrair e serrar madeira para exportação.

         A partir da construção da ferrovia e das oportunidades comerciais com o advento da Primeira Guerra Mundial[28], a indústria madeireira toma grande impulso, surgindo várias serrarias na região, dentro ou fora das colônias. As madeiras mais exploradas foram o pinheiro (Araucaria angustifolia), a imbuia (Ocotea porosa) e o cedro (Cedrela fissilis), com predominância absoluta do primeiro, devido não só as excelentes qualidades de sua madeira, mas também a sua abundância no interior da Floresta Ombrófila Mista. Nos pinhais mais densos chegavam a ocorrer mais de 200 araucárias por hectare.[29]

         Dessa época em diante são construídas um número crescente de serrarias no Médio Vale do Iguaçu, principalmente a partir da década de 1930, a maioria delas montadas pelos migrantes europeus e seus descendentes. Também passou a ocorrer frequentemente, com o crescimento do ramo madeireiro no sul do país, que madeireiros de outras regiões do Paraná e Santa Catarina  se estabelecessem  com serrarias filiais na região. Essas empresas madeireiras, espalhadas com diversas serrarias pela área da floresta de araucária no sul do país, também eram frequentemente controladas por famílias de migrantes europeus. Como exemplo de serrarias com filiais na região e controladas ou fundadas por famílias de  migrantes citamos empresas mencionadas por João Kretzen em As grandes potências econômicas no Estado do Paraná.[30] A Serrarias Anciutti S. A., fundada por João Batista Anciutti em 1908, e que em 1950 possuía 4 serrarias nos municípios paranaenses de Irati, Teixeira Soares e União da Vitória. Ainda há o exemplo da Indústrias Pedro N. Pizzatto Ltda, fundada em 1918, e existente até hoje na região, possuindo em 1950, serrarias em Piraquara, Rio Negro, São Mateus do Sul, Palmas e Porto União. Por fim citamos, deixando de lado outros tantos exemplos mencionados por João Kretzen, a empresa João Sguario, registrada em 1936, e possuindo, também em 1950, “16 serrarias no Estado do Paraná, nos municípios de Piraí do Sul, Castro, Jaguariaiva, Tibagi, Tomazina, Apucarana, Cerro Azul, Lapa, São João do Triunfo, União da Vitória.”[31]

         Não é nosso objetivo nesse artigo expor em maiores detalhes os passos seguintes da exploração madeireira e desmatamento no Médio Vale do Iguaçu, quando os madeireiros iniciaram os plantios de árvores exóticas do gênero Pinus, entre as décadas de 1960 e 1970. Provavelmente isso se deu pelo esgotamento das florestas nativas nessa época, como apontam outros autores.[32]

         Para toda a área de araucária no Sul do Brasil, Miguel Guerra et al calcularam em 2 a 4% a área remanescente desse tipo florestal.[33] A cobertura vegetal do Sul do Paraná e Norte de Santa Catarina, ou do Médio Vale do Iguaçu, de acordo com o Atlas da Fundação SOS Mata Atlântica[34] e de CastelLa  e Britez[35] é, apesar de todo o passado madeireiro, dos mais significativos, para a área de araucária, embora os remanescentes se encontrem em estágio inicial de regeneração ecológica, e apenas cerca de 0,1% da área do antigo município de União da Vitória foi classificado pelos autores como em estágio avançado de sucessão ecológica. [36]

Por Miguel Mundstock Xavier de Carvalho[1]

e Eunice Sueli Nodari[2]


[1] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina. miguelmxdecarvalho@yahoo.com.br

[2] Professora do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina. eunicenodari@yahoo.com.br


[1]DRUMMOND, José Augusto. Devastação e preservação ambiental: os parques nacionais do estado do Rio de Janeiro. Niterói: EDUFF, 1997.

[2]WORSTER, Donald. Para fazer história ambiental. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 4, n. 8. 1991. p.203.

[3]Para disuctir mais essa questão ver NODARI, Eunice S.; CESCO, Susana; WERLE, Márcio J.; CARVALHO, Miguel M. X. de. As florestas do Sul do Brasil na Imprensa Alemã e a Atração de Migrantes. p.163-175. In: DREHER, Martin N.; RAMBO, Arthur B.; TRAMONTINI, Marcos J. Imigração e Imprensa. Porto Alegre: EST/ São Leopoldo: Instituto Histórico de São Leopoldo, 2004.

[4]BALÉE, W. People of the Fallow: a historical ecology of foraging in Lowland South America. In: REDFORD, K. H.; PADOCH, C. (eds.) Conservation of Neotropical Forests. 1 ed. New York: Columbia University Press. p.35-57.

[5]KLEIN, R. M. O aspecto dinâmico do pinheiro brasileiro. Sellowia; Anais Botânicos do Herbário Barbosa Rodrigues. n.12. 1960. p.36.

[6] “A presença de Araucaria angustifolia e Ocotea porosa em geral garante maior frequência da erva-mate.” SIMÕES, Luciana L., LINO, Clayton F. (Org.) Sustentável Mata Atlântica: a exploração de seus recursos florestais.  São Paulo: Ed. SENAC, 2002. p. 21.

[7]CASTELLA, Paulo R.; BRITEZ, Ricardo M. de. A floresta com araucária no Paraná: conservação e diagnóstico dos remanescentes florestais/ Fundação de Pesquisas Florestais do Paraná. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2004. p.196.

[8]  PEREIRA, Walmir da Silva. A ferrovia São Paulo-Rio Grande e os índios Xokleng – relações interétnicas e modernidade no Brasil meridional. 1995. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – UFSC, Florianópolis .

[9]SANTOS, Sérgio Ferreira dos. Arqueologia no vale do rio Vermelho. 2000. 142p. Monografia (Especialização em História do Brasil) – Curso de Pós-Graduação em História do Brasil da Faculdade Estadual de Filoofia, Ciências e Letras de União da Vitória-PR. p.118.

[10]MILIS, Herminio. José Fagundes e Joaquim O. Ribas (organizadores). Monografia de Porto União. Palmas-PR: Kaygangue, 2002. Coleção Vale do Iguaçu. p.63.

[11]Local propício do rio à travessia do gado.

[12]MARTINS, P. S. Dinâmica evolutiva em roças de caboclos amazônicos. In: VIEIRA, I. C. G.; SILVA, J. M. C.; OREN, D. C.; D’INCAO, M. A. (eds.) Diversidade biológica e cultural da Amazônia. Belém : Museu Paraense Emílio Goeldi, 2001. p. 369-384.

[13]MARCON, Telmo. Espaço e cultura: os caboclos e a constituição da região. In: Memória, história e cultura. Chapecó:  Argos, 2003. p. 69.

14Ver também ARRUDA, Gilmar. (org.) Natureza, Fronteiras e Territórios: imagens e narrativas. Londrina: Eduel, 2005.

15SANTOS, op. cit.

[16]SILVA, José Júlio Cleto da. Apontamentos históricos de União da Vitória (1768-1933). Separata do boletim n.30 do Instituto Histórico e Gegoráfico e Etnográfico Paranaense. Curitiba: UFPR, 1933. p.47, 48, 50.

[17]THOMÉ, Nilson. Ciclo da Madeira: história da devastação da Floresta da Araucária e do desenvolvimento da indústria madeireira em Caçador e na região do contestado no século XX. Caçador: Impressora Universal, 1995. p.53,54.

[18]CORREIA, Manoel F. Ferreira. A colonisação no Paraná. Relatório referente ao anno de 1910 apresentado pelo Inspector do Serviço de Povoamento no Estado do Paraná, Engenheiro Manoel F. Ferreira Correia ao sr. director geral Dr. Joaquim Francisco Gonçalves Junior. Curityba: Typographia d’A Republica, 1911. p.40.

[19]COLÔNIA São Miguel. A União, Porto União. 13 jun. 1920. n. 10. p. 1.

20RIESEMBERG, Alvir. A Instalação Humana no Vale do Iguaçu. Curitiba: (s. ed.), 1973. p. 108.

21SILVA, Cleto da. Apontamentos históricos de União da Vitória, 1769-1933. União da Vitória, ed. do autor, 1933. p. 220.O recenseamento de 1911 foi feito pela inspetoria do Serviço de Povoamento no Estado do Paraná, enquanto o de 1933 eram dados da Prefeitura de União da Vitória. Quanto ao enorme crescimento da população cabocla na colônia, ou se trata de um erro em ambos os censos, ou teria havido uma intensa migração para aquela colônia, já que outras colônias vizinhas possuíam, segundo Alvir Riesemberg, uma população de brasileiros bem maior no início do século XX do que Cruz Machado.

22RIESEMBERG, op. cit. p. 104-106.

[23]CROSBY, Alfred. Imperialismo Ecológico: a expansão biológica da Europa: 900-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

[24]CROSBY, op. cit. p. 134. As Neo-Europas, para Crosby, compreendem as regiões do mundo que predominam os descendentes de europeus: Austrália, Nova Zelândia, América do Norte, Argentina, Uruguai e Sul do Brasil. p. 14.

[25]Para um estudo mais aprofundado do impacto dos europeus sobre a vida selvagem mundial ver. PONTING, Clive. Uma história  verde do mundo. Cap. 9. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.

[26]CROSBY, op.cit. p. 153.

[27]O envolvimento das empresas colonizadoras com a atividade madeireira foi bastante claro nas pesquisas que fizemos sobre o Oeste de Santa Catarina. NODARI, Eunice S.; CARVALHO, Miguel M. X. de. A atuação das empresas colonizadoras e o desmatamento do Oeste de Santa Catarina. I ENCONTRO REGIONAL DE PROFISSIONAIS DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA: “CONJUNTURA NACIONAL E PERSPECTIVAS”, 2004, São Miguel do Oeste – SC. Anais…    São Miguel do Oeste: UNOESC, 2004. p. 35-41. Warren Dean também confirma esse envolvimento em relação a atuação da famosa Companhia de Terras do Norte do Paraná. DEAN, op. cit. p. 255, 256.

[28]LAVALLE, Aida Mansani. A madeira na economia paranaense. Curitiba, GRAFIPAR, 1981.p. 13

[29]REITZ, Raulino; KLEIN, Roberto M.; REIS, Ademir. Madeiras do Brasil. Florianópolis: Ed, Lunardelli, 1979. p.248.

25KRETZEN, João. As grandes potências econômicas no Estado do Paraná. 2 ed. Curitiba: Escritório Sul-Brasil, 1951.

26Ibid, p. 151, 152, 181.

27Ver LAVALLE, op. cit. EDUARDO, Rosemari Pozzi. A madeira em Santa Catarina (1930-1972). 1974. Dissertação (Mestrado em História) – UFPR, Curitiba.

28GUERRA, Miguel P. et. al. “Exploração, manejo e conservação da araucária (araucaria angustifolia). In: SIMÕES, Luciana L., LINO, Clayton F. (Org.) Sustentável Mata Atlântica: a exploração de seus recursos florestais.  São Paulo: Ed. SENAC, 2002. p. 86.

29www.sosmataatlantica.org.br

30CASTELLA; BRITEZ. Op. cit. p. 162-164, 196-201.

31Idem.

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