Resenha de “História Ambiental no Brasil: pesquisa e ensino”

A indicação do mês é do volume publicado pelo historiador ambiental Paulo Henrique Martinez. A obra reflete e compila alguns dos estudos desenvolvidos no Laboratório de História e Meio Ambiente (LABHIMA), criado pelo autor em 2003, junto ao Departamento de História da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Assis; uma iniciativa inédita nas universidades paulistas que confluiu para incorporação na grade de ensino (graduação em História da UNESP/Assis) a disciplina História Ambiental, em clara sintonia com as demandas sociais acerca da temática do meio ambiente, dada inclusive como Tema Transversal nos Parâmetros Curriculares Nacional, desde 1996.

O livro revela a preocupação em munir os futuros historiadores e professores de história com referenciais teórico-metodológicos e de práticas de pesquisa para lidar com o conjunto de questões abertas pela temática ambiental. Mesmo que essas não constituam objeto de pesquisa em pós-graduação para o historiador, esse profissional e cidadão se deparará com elas no desempenho de seu ofício docente e no próprio debate público. Reflexão que, portanto, extrapola a formação apenas acadêmica, contribuindo para a qualificação do exercício da Cidadania. Como contextualizar e compreender esse debate criticamente, sem simplificações e anacronismos?

Assim como o livro de Regina Horta Duarte, História & Natureza, já indicado aqui, a obra em questão, oferece reflexões seguras e perspectivas ricas para a pesquisa e entendimento da temática ambiental. Além da experiência inovadora de um Laboratório de História e Meio Ambiente, em termos de pesquisa e ensino de História (revelado no último capítulo), o livro é generoso em críticas e formulações conceituais para o tratamento do tema pelos historiadores, conforme esmiuçado nos três capítulos restantes: “Os historiadores e o Meio Ambiente”, “Sociedade e natureza: uma História Ambiental” e “O sentido da devastação”.

Um conjunto voltado à reflexão teórico-metodológica da História Ambiental, e, sobretudo, pensando a realidade brasileira. Ponto de destaque dessa obra é a preocupação em não refletir a História Ambiental apenas segundo configurações pré-estabelecidas pela agenda da historiografia ambiental norte-americana, mas, dialogar, investigar e identificar as peculiaridades que assumem essa prática historiográfica num país de passado colonial, escravista, e de inserção na economia mundial como fornecedor de matéria prima.

Questões caras aos principais “intérpretes” do Brasil, como Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. Fato que, segundo Martinez, nos dá uma base sólida de pensamento crítico, e nos coloca numa posição a refutar a ideia simplista de que a História Ambiental no Brasil seria mais um mimetismo acadêmico, para sim, possibilidade de reestabelecer um diálogo com essa historiografia crítica que pensou a realidade brasileira em seu processo de exploração perdulária da natureza e dos seres humanos.

Dos textos que compõem o livro, três deles se baseiam em publicações anteriormente em revistas especializadas e podem ser acessados pela internet:

– “Brasil: desafios para a História Ambiental”, Revista Nómadas, Bogotá, Colômbia, n. 22, abril 2005. Disponível aqui: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/1051/105116726003.pdf

– “O sentido da devastação: para uma História Ambiental no Brasil”, Revista Esboços, Florianópolis, Santa Catarina, vol. 12, n. 13, 2005. Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/esbocos/article/view/208

– “Laboratório de História e meio ambiente: estratégia institucional na formação continuada de historiadores”. Revista Brasileira de História, São Paulo, vol. 24, n. 48, 2004. Disponível aqui: http://www.scielo.br/pdf/rbh/v24n48/a11v24n48.pdf

MARTINEZ, Paulo Henrique. História Ambiental no Brasil: pesquisa e ensino. São Paulo: Cortez, 2006. 120p.

 

Resenha por Carlos Alberto Menarin.