Revista Fauna

Revista Fauna, 195o

Não é sempre que podemos encontrar e saborear raros exemplares de FAUNA-Órgão Mensal do Caçador e Pescador Nacional , ou ainda com o subtítulo: ?Revista Mensal de Caça, Pesca,Tiro, Cães e Aventuras em Geral ? para uma análise do imaginário ambiental do Brasil dos anos 40, 50 e 60.

Ali, neste periódico cinegético, publicado pela editora ?Sítios e Fazendas? mensalmente desde 1941 até o fim dos anos 60, revelavam-se histórias de um Brasil que ainda era parcialmente selvagem e enigmático, e o desprezo e frieza com que se abatiam os nossos animais através de comentários, no mínimo, dantescos.

Histórias de caçadores atrás de onças, peixes gigantescos, animais estranhos, tudo era espantoso para os leitores dos centros urbanos, à época, não tão distantes das florestas que restavam ? e bem antes que os avassaladores ciclos das monoculturas dos anos 70 pudessem transformar o Brasil em uma paisagem monocromática.

A revista cuja apresentação de artigos flerta com o grotesco e o bizarro, causa espécie ao leitor do século XXI pela brutalidade e selvageria cometidas contra a fauna nacional.

Porém, é através do viés romântico-naturalista, que FAUNA nos surpreende pela quantidade informações biológicas. Entomologia, anatomia, ecologia, curiosidades ambientais, reportagens internacionais, amenizam a leitura de suas sanguinárias páginas.

Sob a égide de Santo Huberto e Diana, patrono e Deusa dos caçadores respectivamente, a revista chega, em raros momentos, a ser até mesmo ambientalmente correta.

Alerta aos leitores da década de 50 sobre os limites e excessos da arte cinegética e da sobrepesca ao plantel nacional. Na edição de maio de 1955, por exemplo, FAUNA se preocupa com o comércio de animais, mas algumas páginas adiante, recobra os sentidos e volta à tona com o que realmente importa ao leitor, relatando de modo macabro acerca de uma caçada de pacas:

 

?..Aprontamo-nos para maior resultado de uma bela caçada que se tornaria inesquecível. Finalmente, após tanto ensaio para o tiro, a capivara levantou a cabeça para tomar respiração, sem demora, sapequei a bicha que foi a conta. Enquanto isso, Pedro Serafim, ocupava-se com outra capivara,aguardando o momento, em que ela apresentasse uma oportunidade para morrer.?

Enquanto o leitor se mantém atualizado com os anúncios de munições, barraca IV Centenário para camping, a famosa garrafa térmica Koringa e pastilha para afecções respiratórias Biolaimo, entremeiam-se nas páginas de FAUNA, inesgotáveis histórias que o periódico se compraz em ver o derramamento de sangue da arte venatória através dos sertões do Mato Grosso, Minas, Goiás, Paraná, entre outros estados.

As descrições sobre a dor e desespero dos animais abatidos são seguidos de comentários emotivos onde o burlesco e o funesto se confundem:

?Eu, que me encontrava na tapagem, presenciando tôda esta cena maravilhosa, era

Na mesma página "FAUNA" se preocupa com o excesso da caça, mas logo em seguida ensina qual a melhor área para abater um veado.

chegada a minha vez de atirar com o cano esquerdo-choke da minha “BERNARDELLI” de 2 canos; cal .12, na paca que já ia com uma boa distância. O chumbo, quase decepou a cabeça da paca, e o Navegante (cão) que vinha tão perto, passou direto, mais adiante foi que percebeu que a “listrada” já tinha ficado atrás morta.

Estas cenas, só ao caçador amante da natureza, é permitido presenciá-las, de tão belas que são. Recomeçamos novamente a caçada, agora com 4 pacas abatidas.

O mestre Davino, chama os cachorros para novas trilhas, e agora é a vez de uma cotia ser fuzilada pela “GECO” cal. 20 de 2 canos do nosso companheiro José Tenorio.

Na última “solta”, a primazia é dos cachorros, pois, os mesmos pegaram a dentes, outra paca e 2 tatus verdadeiros. O nosso companheiro José Moramba, atirou em pleno vôo, num macuco que vinha para o seu lado, derrubando-o com o famoso clavinote.

O resultado do último dia de caçada, foi ótimo; a terça-feira de carnaval deu nos sorte, pois, abatemos nada menos do que :

5 pacas bocas fundas, 1 cotia lombo preto, 2 tatus verdadeiros e um macuco. Para quem não fez nada, nos dois primeiros dias, este resultado foi bastante satisfatório, porque só caçamos a metade do dia de terça- feira e fizemos muita coisa.?

No fim do referido artigo e para o azar das pacas esta turma de admiradores da arte cinegética retornaria ao mesmo recanto, finaliza o caçador:

?Este Rio das Cruzes, é mesmo o “paraíso dos Caçadores! Aqui, coloco um ponto final, em mais uma caçada do Carnaval, prometendo com esta mesma turma, voltarmos novamente a este mesmo local, para o ano, se Deus permitir?.

A famosa barraca IV Centenário

É óbvio, nos dias de hoje, que decepar a cabeça de uma paca com uma calibre .12 realmente não parece uma cena digna de beleza e citação. Mas este era o ideário dos amantes da ?natureza? dos anos 50 no Brasil. As percepções da sociedade diante de conceitos sobre os animais e plantas constituem-se nada menos do que uma das vertentes de estudo da história ambiental. E são por si só, esclarecedoras da evolução do pensamento de uma sociedade.

Nas páginas de FAUNA podemos entender a surpreendente dizimação da nossa fauna, conhecer a mente de homens que se julgavam superiores a dor e ao sofrimento dos animais, sempre representados como seres inferiores e que deviam ser subjugados através da força e da pólvora para a contemplação do ser humano.

Hoje, caminhando pelas estéreis searas brasileiras ou navegando pelos contaminados rios de todas as bacias, é fácil entender a ausência de animais ou de árvores frondosas – para aqueles que conhecem a nossa história ambiental. Para os mais desavisados sobre o que foi a carnificina venatória do século XX no Brasil fica a pergunta:

– Ué, cadê a bicharada?

Autor: Alessandro Casagrande

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